Tradução: Emma
Capítulo 09
Assim que Thalia abriu os olhos, vestiu-se com mais cuidado do que nunca.
Suportou em silêncio as mãos das criadas enquanto elas a esfregavam com escovas duras e ásperas até sua pele ficar vermelha, e tolerou até mesmo a escovação implacável que fazia seu couro cabeludo arder.
Depois de terminar de se arrumar, pegou e vestiu o vestido de veludo que seu avô materno, que sempre a olhara com desagrado, lhe dera pela primeira vez no dia em que deixou a família Taren.
Quando olhou no espelho, viu o reflexo de uma menina com um rosto tão bonito quanto o de um anjo.
Pensou que essa seria exatamente a aparência de Senevia se voltasse a ter nove anos.
Através do espelho, fitou intensamente os olhos azul-escuros que eram exatamente da mesma cor dos de sua mãe, depois saiu do quarto com uma expressão determinada.
Mas o menino, que sempre treinava na mesma hora, não estava em lugar nenhum hoje.
Depois de se livrar da assistente e vagar pelo pátio do castelo por um bom tempo, Thalia deixou os ombros caírem, desapontada.
Quando pensou que talvez nunca mais o encontrasse assim, sua visão escureceu.
Ela mesma não sabia por que estava tão obcecada por um estranho com quem havia falado apenas uma vez.
Não.
Na verdade, ela sabia.
Naquele dia em que choveu tão forte, ele poderia simplesmente ter ignorado uma criança enlameada e seguido em frente, mas não o fez.
Ele havia entrado no poço, mesmo sujando a roupa e os sapatos, e a tirou de lá.
Segurou o corpo dela, gelado pela chuva, em seus braços quentes e ficou olhando nos olhos dela por um longo tempo.
Envolveu cuidadosamente o pássaro moribundo e maltrapilho e o levou para sua residência.
Isso por si só foi o suficiente para que se tornasse a esperança dela.
Thalia caminhava sem parar ao longo da borda externa do edifício que se erguia tão alto que parecia tocar o céu.
O palácio imperial era como o ventre de um monstro gigantesco.
Era tão vasto e complicado que, embora ela já morasse ali há vários meses, havia lugares que nunca tinha visto antes que continuavam aparecendo sem fim.
Vagou por um longo tempo por um jardim repleto de flores e árvores, depois atravessou um amplo terreno aberto e seguiu em direção aos fundos do palácio principal.
Suas pernas, que haviam se movido sem descanso desde o início da manhã até o meio-dia, latejavam e reclamavam de dor.
Talvez tivessem se formado bolhas, pois cada vez que dava um passo, as solas dos pés ardiam como se tivessem tocado fogo.
Enxugou as gotas de suor que escorriam pela testa e olhou para o céu azul através das folhas densas.
Há quanto tempo estava assim?
Assim que se endireitou, pensando que agora deveria voltar ao palácio anexo, avistou as costas esguias de um menino entre as retas bétulas.
Os olhos de Thalia brilharam de alegria.
Embora estivesse bem longe, ela o reconheceu imediatamente.
Seus movimentos ágeis e elegantes enquanto caminhava silenciosamente, com as costas eretas como água corrente, eram algo que ninguém ousaria imitar.
Thalia imediatamente começou a correr atrás dele.
Mas, por mais que acelerasse o passo, a distância entre eles não diminuía.
Ela percebeu que o rapaz estava com bastante pressa.
Para onde ele estava indo com tanta pressa?
Pensou em chamá-lo em voz alta, mas estava tão sem fôlego que a voz não saía.
No fim, o perdeu de vista.
Thalia sentou-se com uma expressão vazia, encostando as costas no tronco de uma árvore.
A luz do sol, como agulhas, incidia intensamente sobre seu rosto encharcado de suor.
Há quanto tempo estava olhando fixamente para cima, através das folhas densas, com os olhos semicerrados e ofuscados?
Um som fraco de risada misturou-se ao vento.
Era um som semelhante ao canto de um pequeno pássaro.
Thalia levantou-se e caminhou lentamente em direção ao local de onde o som vinha.
Depois de passar pelas bétulas densamente crescidas e pelos arbustos frondosos, um belo canteiro repleto de lavanda, malmequeres e flores brancas de milho, um pavilhão de mármore branco puro e uma pequena fonte apareceram à sua frente.
Era um jardim encantador, como um palácio de fadas.
Thalia olhou ao redor como se estivesse encantada pela paisagem de tirar o fôlego, onde partículas douradas pareciam flutuar no ar.
Então avistou o menino ajoelhado diante de uma cadeira de mármore.
Ele não estava sozinho.
Sentada à sua frente estava uma garota adorável que parecia ter mais ou menos a mesma idade dela.
Era uma menina bonita, com cabelos castanhos escuros como seda e bochechas rosadas.
Enquanto a garota tagarelava sem parar sobre algo, um leve sorriso surgiu nos lábios do rapaz.
Quando Thalia viu aquilo, sentiu um aperto no peito, como se tivesse sido perfurada por algo afiado.
Parecia que um tesouro que pertencia apenas a ela havia sido roubado.
Thalia sabia que aquele sentimento era irracional.
À primeira vista, os dois pareciam se conhecer há muito tempo.
Em contraste, ela era apenas uma estranha.
Então, Thalia decidiu se aproximar deles e se apresentar educadamente.
Ela queria, de alguma forma, fazer parte da atmosfera acolhedora que envolvia os dois.
Mais do que tudo, queria que os olhos azuis e o sorriso discreto do menino se voltassem para ela.
Como se impulsionada por aquele intenso desejo, ela saiu de trás dos arbustos e se aproximou da fonte que jorrava água.
Então, os belos olhos azuis-prateados do menino e um par de olhos verdes claros se voltaram para ela.
Thalia, que nunca havia interagido com crianças da sua idade, sentiu a boca secar por um instante.
Mas ela era uma princesa imperial.
Achou que não havia como eles ousarem recusar quando estava se oferecendo para ser amiga deles.
Ergueu o queixo deliberadamente e os cumprimentou com confiança.
— Olá.
O menino apenas ficou olhando para ela, sem se mover nem um pouco.
Será que ele não me reconhece?
Quando se conheceram, ela estava completamente coberta de lama, então pensou que ele talvez não a reconhecesse agora que estava vestida como uma princesa.
Por isso, estava prestes a mencionar a vez em que ele a ajudará, há vários meses, mas a garota, que estava sentada ali com um olhar atordoado, de repente soltou um grito agudo.
— Não! Não! Não nesse lugar!
Era uma voz desesperada, como se tivesse se deparado com um pesadelo terrível.
A menina, que olhava para Thalia com olhos aterrorizados, se jogou em direção ao menino.
— Por favor, Varkas! Expulsa essa criança daqui! Faça com que ela nem sequer possa pôr os pés neste lugar! Faça com que eu nunca mais tenha que vê-la!
Seus braços finos envolveram o pescoço do rapaz.
O rapaz abraçou as costas da garota, que gritava de angústia, como se a protegesse, e então lançou um olhar frio sobre os ombros estreitos dela, que tremiam violentamente.
Thalia deu um passo para trás.
Ele a ameaçou em voz baixa.
— Saia daqui imediatamente!
Thalia ficou olhando fixamente para o rosto frio dele, depois logo se virou e começou a correr.
Parecia que água gelada havia sido derramada sobre ela, começando pelo topo da cabeça.
Ela não conseguia pensar em nada, como se seu cérebro tivesse ficado entorpecido.
Por quanto tempo havia corrido assim?
Quando chegou à área próxima ao castelo principal, algo a agarrou com força pelos cabelos.
Por causa disso, sua cabeça foi jogada para trás e seu corpo inclinou-se bruscamente.
E antes mesmo que pudesse entender o que havia acontecido, um forte impacto atingiu seu corpo.
Ela rolou pela grama, segurando o estômago latejante.
— Como alguém como você ousa pisar em um lugar como esse!
Uma voz jovem, cheia de raiva, ressoou estrondosamente acima de sua cabeça.
Thalia olhou para cima com uma expressão perplexa.
Um menino que nunca tinha visto antes a encarava com raiva.
Cabelos negros como a noite e olhos verdes como chamas...
Percebeu que o rosto dele se parecia muito com o da garota que acabara de ver, mas não tinha como saber quando ele havia começado a persegui-la nem por que estava tão furioso.
Ela simplesmente ficou paralisada de choque ao sofrer tal tratamento pela primeira vez na vida, quando o menino lhe deu mais um chute no abdômen.
— Morra!
Com o impacto que deixou sua visão em branco, se encolheu o máximo que pôde e soltou uma tosse fraca.
O menino continuou chutando-a sem parar, como se estivesse chutando uma bolinha.
— Morra! Morra! Apenas morra!
Seu grito, que mais parecia um uivo, perfurou seus tímpanos como uma unha comprida.
Os xingamentos e a violência do menino não pararam até que os criados que testemunharam a cena correram para lá, em choque.
Thalia rastejou pelo chão como um inseto para evitar os chutes violentos.
Mesmo depois de espancá-la daquele jeito, o menino ainda parecia incapaz de acalmar sua raiva e, enquanto dois assistentes seguravam seus braços, ele rugiu como uma fera.
— Desapareça deste mundo! Sua bastarda imunda!
