Tradução: Emma
Capítulo 10
Depois daquela confusão, Thalia passou a permanecer apenas dentro do palácio anexo.
Mas, por causa das criadas que cochichavam sem parar, como se jamais tivessem aprendido a manter a boca fechada, ela descobriu que o garoto que a havia agredido era o príncipe herdeiro do império e seu meio-irmão.
E também descobriu que a garota de cabelos negros que havia visto na floresta de bétulas naquele dia era sua meia-irmã...
Também descobriu que ainda não fazia sequer seis meses desde que os dois haviam perdido a mãe.
Isso significava que Thalia e Senevia haviam entrado para a família imperial apenas três semanas depois da morte da antiga imperatriz Bernadette.
Senevia chegou até mesmo a apagar todos os vestígios da antiga imperatriz assim que entrou no palácio imperial.
Talvez aquele pequeno jardim atrás do palácio principal fosse um vestígio de Bernadette que sua mãe ainda não havia conseguido remover.
Ela olhou pela janela.
A chuva de verão caía pesadamente sobre o jardim que sua mãe havia decorado cuidadosamente.
As plantas do jardim, encharcadas de umidade e exalando o forte cheiro de grama, pareciam monstros horríveis.
Ela fechou as cortinas da janela.
Então se encolheu sobre a cama e relembrou o olhar cheio de ódio do príncipe herdeiro e o rosto de sua meia-irmã, que havia ficado pálido de medo.
E o garoto de olhos azuis que a abraçará como se estivesse protegendo-a, enquanto lançava um olhar frio para Thalia...
— Varkas Laedgo Siarkan...
Encarou o teto e murmurou o nome dele distraidamente.
Finalmente havia descoberto o nome do garoto, mas não sentia felicidade alguma por isso.
Porque havia percebido que ele jamais sorriria para ela.
A antiga imperatriz Bernadette era da Marquesaria de Oristein, uma das famílias mais prestigiosas de Osiria, mas sua mãe havia sido uma nobre da casa Siarkan.
Em outras palavras, a imperatriz falecida e Varkas eram parentes distantes.
Ela inclusive havia cuidado atentamente de Varkas, que entrará jovem no palácio imperial e começara a receber uma educação rigorosa.
Talvez ele considerasse Senevia uma inimiga.
“E a mim também...”
Quando se lembrou dos olhos frios que haviam se voltado para ela, pela primeira vez sentiu ressentimento por ser filha de Senevia.
Até mesmo sua aparência, tão parecida com a da mulher da qual sempre se orgulhará, parecia vergonhosa.
Thalia não queria sentir emoções assim.
Eu que fui espancada daquele jeito, então por que deveria me sentir culpada?
Quem fez algo errado foi o príncipe herdeiro.
Realmente não sabia de nada.
O que fiz de errado?
Eu não sou má.
Não fiz nada de errado.
Thalia repetiu isso para si mesma sem parar.
Mas sempre que era cercada pelos olhares frios dos servos, aqueles pensamentos desapareciam sem deixar rastros.
Thalia compreendia perfeitamente o significado das mãos cruéis deles quando a tocavam.
Trazer água de banho gelada como gelo e esfregá-la com brutalidade até sua pele ficar vermelha, espetar discretamente sua carne com pinças sempre que trocavam suas roupas, escovar seus cabelos com tanta força que feridas surgiam em seu couro cabeludo, servir comida fria em todas as refeições...
Tudo aquilo era a forma de punição deles contra ela.
Ela sabia que era odiada.
Mas não havia sido muito diferente quando vivia com a família Taren, então não se importava tanto.
Sempre que se sentia intimidada, Senevia a abraçava firmemente e sussurrava que ela era fruto de um amor verdadeiro e que não precisava se importar com o que ninguém dissesse.
Thalia acreditava nessas palavras e sempre tentava agir com confiança.
Mas agora sua mãe não permanecia mais ao seu lado, e tudo ao seu redor eram sussurros sobre como a antiga imperatriz era benevolente e gentil, e como viveu e morreu em grande sofrimento.
Thalia ficou visivelmente abatida.
Sua cabeça, que antes sempre permanecia erguida e altiva, começou a se retrair como a de uma tartaruga, e seu olhar naturalmente passou a se voltar para o chão.
E os servos, que perceberam essa mudança com sensibilidade cruel, tornaram-se cada vez mais impiedosos.
Como nem o imperador nem sequer Senevia lhe davam qualquer atenção especial, parecia que eles haviam perdido até mesmo o medo de serem punidos.
Para começo de conversa, para eles, Thalia não era uma princesa imperial.
Era apenas a existência que havia ferido o coração de Bernadette, a imperatriz a quem serviram lealmente por tanto tempo, e a prova de um caso escandaloso.
Sempre que Thalia passava pelos corredores, conseguia ouvi-los sussurrando aquilo sobre ela.
Parecia que sua mente poderia se despedaçar.
Toda vez que ouvia palavras culpando-a, sentia-se injustiçada e furiosa.
Mas, quando diziam que tantas pessoas haviam sofrido por causa de seu nascimento, também sentia que talvez devesse suportar toda aquela tristeza.
No entanto, os tormentos deles acabaram alcançando um nível que ela já não conseguia suportar.
Foi por volta da época em que duas estações haviam se passado desde sua entrada no palácio imperial.
Thalia desceu até a sala de jantar para tomar café da manhã e foi tomada por uma estranha sensação de inquietação.
Naquele dia, especialmente muitos servos haviam aparecido para atendê-la.
Quando viu as criadas alinhadas ao longo da parede, teve um pressentimento sombrio de que algo estava prestes a acontecer.
Mas, ao contrário do que esperava, os servos estavam educados, e havia uma quantidade incomum de comida sobre a mesa.
Thalia olhou para o prato de prata como se estivesse hipnotizada.
Em vez de pão duro e amanhecido, uma criada da cozinha trouxe pão recém-assado, dourado e macio, acompanhado de manteiga, e logo depois codornas assadas e um ensopado quente fumegante foram colocados na sua frente.
Nos últimos meses, não havia comido nada além de refeições miseráveis dia e noite.
Quando viu um ensopado quente cheio de ingredientes em vez de sopa rala e fria como água da chuva, vergonhosamente, sentiu vontade de chorar.
Thalia olhou ao redor para os servos.
Dezenas de pares de olhos observavam sua reação.
Será que não querem mais me punir?
Talvez tenham decidido perdoar minha existência e agora mostraram gentileza.
Thalia ergueu a colher.
Então pegou um pouco do caldo fumegante e o levou à boca.
Os sabores de manteiga, leite e diversos vegetais, junto de uma leve doçura, espalharam-se por sua boca.
Ao sentir o gosto de comida quente depois de tanto tempo, uma fome intensa surgiu dentro dela.
Esquecendo toda a dignidade, começou a comer o ensopado apressadamente.
Por quanto tempo esteve movendo a colher daquele jeito?
De repente, sentiu um gosto muito estranho.
Era podre demais para ser apenas o cheiro forte da carne que os temperos não conseguiam mascarar.
Ela franziu a testa e encarou fixamente o ensopado.
Foi então que ouviu risadinhas vindo atrás dela.
Thalia virou a cabeça abruptamente.
Todas as criadas mantinham expressões inexpressivas e os olhos abaixados.
Mas Thalia conseguia ver claramente os cantos de suas bocas tremendo.
Naquele instante, suor frio percorreu sua espinha.
Depois de hesitar por um longo tempo, Thalia remexeu o conteúdo da tigela com a colher.
Quando afastou os grandes pedaços de comida, viu algo parecido com um pesado pedaço de carne afundado no fundo da tigela profunda.
Não.
Não era um pedaço de carne.
Thalia ergueu o objeto escuro com a colher e congelou em choque.
Um rato cinzento, inchado pelo caldo espesso, pendia mole com a boca aberta.
Nem sequer conseguiu gritar.
Seu corpo despencou da cadeira, e ela vomitou o ensopado no chão.
Mesmo vomitando mais do que havia comido, a náusea não cessava.
O cheiro podre na ponta do nariz ficava cada vez mais forte.
Parecia que o gosto do rato morto havia grudado na ponta de sua língua e jamais desapareceria.
Enfiou os dedos na garganta e arranhou a própria língua, forçando dolorosamente mais vômito, mesmo quando já não havia nada para sair.
Por quanto tempo ficou caída no chão daquele jeito, vomitando sem parar?
Através da visão embaçada pelas lágrimas, viu um par de pés se movendo ao redor da mesa.
Thalia ergueu a cabeça lentamente.
A criada responsável pela cozinha estava recolhendo os pratos calmamente, como se nada tivesse acontecido.
Os outros servos também se moviam ocupados ao redor da mesa, recolhendo a louça e limpando a superfície.
Como se não conseguissem sequer enxergá-la caída no próprio vômito...
