O Campo Esquecido [Novel]

Todos os dias, eu rezo… para que este amor morra. Que eu te ame apenas até hoje, e que amanhã, este amor tenha desaparecido. Thalia Roem Ghirta é uma princesa imperial trágica, fruto de um caso extraconjugal e criada em um palácio que nunca a aceitou de verdade. Cercada por pais indiferentes, meio-irmãos hostis e servos que a desprezavam, Thalia cresceu marcada pela negligência. Para se proteger, aprendeu a mostrar seus espinhos a qualquer um que se aproximasse. E, no entanto, diante de uma pessoa, até mesmo ela se torna completamente indefesa. Varkas Raedgo Siarkan, um nobre senhor do Oriente, é vassalo da família imperial e herdeiro de uma casa grão-ducal. Criado sob a implacável pressão da perfeição, suas emoções foram embotadas por um treinamento que beirava o abuso. Ele vivia apenas para a honra e o dever de sua família. Para cumprir uma promessa feita à antiga imperatriz, Varkas fica noivo da meia-irmã de Thalia, Ayla. Consumida pelo desespero, Thalia começa a desmoronar lentamente. Mas o seu amor, outrora fadado apenas à morte, logo encontra uma reviravolta inesperada…

Capítulo 3

Capítulo 3

Tradução: Emma

Capítulo 03


Parecia que seus irmãos ainda não haviam chegado.

Gareth Roem Gurta, o príncipe herdeiro do império e seu meio-irmão, sempre permanecia como um soberano, seja no centro do salão de banquetes ou no assento de honra do segundo andar, de onde podia observar todo o salão de uma só vez.

E Ayla ficaria ao lado do príncipe herdeiro, parecendo extremamente digna e elegante.

Mas esta noite talvez eu não consiga ver Ayla Roem Gurta.

Ela pegou uma taça de prata de uma pequena mesa redonda e soltou uma risadinha contida.

Quando se lembrou de Ayla desabando no meio do salão de banquetes pouco tempo atrás, com o rosto mortalmente pálido, uma satisfação cruel floresceu em seu peito.

A cena dela vomitando vinho sobre o chão de mármore parecia como se estivesse derramando o próprio coração.

Teria sido bom se eu realmente tivesse conseguido fazer isso acontecer.

Com a ponta afiada da unha, Thalia arranhou a superfície da taça até produzir um som estridente.

Ela não sabia o quanto havia rezado desesperadamente em silêncio enquanto observava sua meia-irmã se contorcendo no chão.

Apenas morra desse jeito, Ayla.

Por favor... nunca mais abra os olhos.

— Sua Alteza.

Thalia, que estava mergulhada em pensamentos sombrios, virou a cabeça ao ouvir a voz próxima.

Um homem elegantemente vestido em um traje formal verde-escuro estava parado ereto, com uma das mãos sobre o peito.

Seu rosto lhe era familiar.

Somente depois de um tempo que se lembrou de que ele era alguém que constantemente frequentava os banquetes organizados por sua mãe.

Não conseguia lembrar seu nome.

Apenas recordava vagamente de sua mãe chamá-lo de Conde Serian.

— Já faz muito tempo, sua alteza. A cada dia fica mais bela.

O homem, que a observava com admiração nos olhos, inclinou-se e beijou o dorso de sua mão.

Uma sensação repulsiva percorreu Thalia, como se tivesse bichos rastejando pela sua pele.

Mas deliberadamente lhe ofereceu um sorriso.

— Minha mãe pediu para que me fizesse companhia?

— Sua majestade, a imperatriz, sempre está preocupada apenas com a vossa alteza.

O homem respondeu de forma afirmativa de maneira indireta.

— Mas, mesmo que não tivesse sido um pedido de sua majestade, não teria conseguido me impedir de falar com vossa alteza. Olhe ao redor.

Ele sussurrou em seu ouvido como se estivesse compartilhando um grande segredo.

— Todos os homens aqui presentes estão olhando para vossa alteza. Assim como eu, desejam se aproximar, beijar essa bela mão e derramar elogios fervorosos, mas reprimem desesperadamente esse desejo. Provavelmente não desejam cair em desgraça diante de sua alteza imperial, o príncipe herdeiro.

— E você é diferente?

— Já conquistei a antipatia dele há muito tempo.

Ele lhe mostrou um sorriso malicioso.

— Graças a isso, recebi a tarefa de acompanhar vossa alteza essa noite, então suponho que o azar tenha acabado se tornando uma bênção.

Thalia não gostava de homens que se aproximavam dela demonstrando interesse além do necessário.

Não.

Eles pertenciam à categoria de coisas que odiava.

Entretanto, ter um escudo plausível parecia melhor do que suportar sozinha centenas de olhares cortantes.

Thalia aceitou ser escoltada com uma atitude como se estivesse lhe oferecendo uma caridade.

— O que sua majestade disse? Pediu que salvasse sua pobre filha mais velha, que estaria isolada como uma ovelha negra?

— Sua majestade ordenou que eu ajudasse a vossa alteza a aproveitar o banquete ao máximo.

Thalia conteve um resmungo.

O homem a conduziu até o palco montado diante da varanda e disse:

— E me instruiu a servi-la com todo o meu empenho para que se destacasse mais do que qualquer pessoa neste salão.

As pessoas que dançavam ao som da lira, do alaúde e do órgão se afastaram desconfortavelmente e lançaram olhares afiados na direção dos dois.

Mas o conde não lhes deu atenção e curvou-se diante dela de forma ostensiva.

— Poderia me conceder a honra desta dança, vossa alteza?

Thalia olhou desconfiada para a mão esguia dele, sem um único calo.

Não tinha o menor desejo de entrar em contato com um homem que mal conhecia.

Mas os olhares afiados das pessoas e seus sussurros a provocaram um sentimento de desafio.

Todos devem estar desejando que eu desapareça daqui.

Ou então desejam que eu fique quieta em algum canto, como se estivesse aqui e ao mesmo tempo não.

Mas não irei permitir isso.

Thalia segurou a mão do homem.

Como se estivesse esperando por aquilo, ele envolveu sua cintura com um braço e começou a conduzi-la pelo palco com uma habilidade refinada.

Até mesmo Thalia, que detestava contato físico, não conseguiu deixar de admirar a excelente habilidade dele na dança.

Conde Serian sabia exibir movimentos perfeitos no ritmo da melodia e tinha talento para destacar discretamente sua parceira.

Thalia sempre gostou de dançar, mas nunca antes seus movimentos haviam parecido tão graciosos quanto naquele momento.

E parecia que não era a única a perceber isso.

Olhou ao redor por cima do ombro do conde, que girava seu corpo habilmente.

Conseguia ver centenas de pares de olhos se movendo em uníssono, acompanhando cada um de seus movimentos.

Todos eram incapazes de desviar o olhar da bastarda imperial que tanto desprezavam.

Thalia sentiu-se triunfante.

Mesmo antes, sempre que aparecia em público, as pessoas fingiam indiferença enquanto observavam secretamente cada um de seus movimentos.

No entanto, aquilo não passava de desprezo e cautela.

Mas desta vez era diferente.

Eles estavam olhando-a da mesma forma que olhavam para sua mãe.

Conseguia sentir aqueles olhares, cheios de medo e fascínio, se enrolando ao redor de seu corpo como um novelo distorcido.

Parecia que havia se tornado Senevia.

O ser mais poderoso, perigoso e belo do mundo.

Mas aquela doce sensação de vitória durou apenas um instante.

A música parou de repente, e as verdadeiras estrelas daquele banquete apareceram.

— Sua alteza imperial Gareth Roem Gurta, o grande príncipe herdeiro do império, e sua alteza imperial Ayla Roem Gurta, a primeira princesa do império, estão entrando!

Com a voz retumbante do mestre de cerimônias, os dois membros da família imperial atravessaram a entrada do salão de banquetes com passos majestosos e desceram a escadaria de mármore.

E em um instante, Thalia ficou em segundo plano da atenção de todos.

Conde Serian sorriu amargamente e a conduziu até o terraço onde vinho e comida estavam dispostos.

— É uma pena que nosso momento agradável tenha sido interrompido.

O conde fez um comentário astuto, como se tentasse aliviar sua expressão endurecida, mas nenhuma palavra realmente alcançou seus ouvidos.

Thalia encarava Ayla, vestida em um vestido branco puro, com olhos ardentes.

Ela parecia ter esquecido completamente a cena vergonhosa que havia protagonizado diante de todos algumas semanas antes.

Quando Thalia viu aquele rosto bonito sorrindo elegantemente ao lado do irmão mais novo, seu estômago queimou de raiva.

Com um olhar persistente, observou um por um os cabelos negros profundos, os olhos esmeralda e os rostos que pareciam esculpidos em marfim.

Emanavam dignidade e confiança próprias de membros da família imperial.

Aquilo era algo que Senevia e Thalia jamais poderiam possuir, não importava o quanto tentassem.

Senevia era uma serpente venenosa que afundara o jovem imperador — outrora elogiado como um governante sagrado — na lama de um caso escandaloso, e Thalia era a sujeira nascida do ventre daquela serpente.

Mesmo que Senevia viesse a dar à luz dezenas de filhos do imperador no futuro, esse fato jamais mudaria.

Thalia lançou um olhar silencioso aos meio-irmãos, cercados pela atenção fervorosa das pessoas, e então se voltou para a mesa onde estavam as taças de vinho.

Foi então que percebeu que aqueles que olhavam para a princesa e o príncipe herdeiro com admiração também lançavam olhares sutis em sua direção enquanto trocavam expressões discretas.

Todos os nervos de seu corpo ficaram tensos.

Queria arrancar os olhos de todos eles.

Não me comparem com eles.

Fingiu desesperadamente uma expressão indiferente enquanto reprimia o impulso de gritar aquelas palavras, mas ao seu lado o homem sussurrou em seu ouvido sem o menor tato:

— Parece que os dois pretendem ignorar a existência de vossa alteza. O que fará? Vai se aproximar primeiro para pedir uma saudação?

Ela lançou um olhar fulminante para o homem.

Ele ergueu os cantos da boca, divertido.

— Não foi exatamente por isso que veio até aqui?

Thalia mordeu o lábio.

Como ele havia dito, ela aparecera ali para estragar o humor dos irmãos.

Para criar uma discórdia terrível naquele lugar onde todos os parabenizavam.

E Senevia certamente desejava o mesmo.

Por fim, Thalia se recompôs, apertando com força a taça de vinho enquanto se virava em direção aos meios-irmãos.

Então avançou com confiança através da multidão.

Naquele momento, Varkas Laedgo Siarkan apareceu na entrada do salão de banquetes.

Thalia parou imediatamente.

Seu coração disparou como se tivesse sido emboscado sem qualquer aviso.