Tradução: Emma
Capítulo 77
— No fim das contas, não conseguimos ver o circo.—Vanessa suspirou de forma dramática e lançou um olhar para ele. River Ross, segurando as rédeas da carruagem, limitou-se a dar de ombros, embora fosse responsável por pelo menos oitenta por cento do atraso. Ela estava irritada, mas não conseguia culpá-lo por completo. Sem ele, aquela fuga que parecia um sonho jamais teria acontecido. E, para ser sincera, a noite havia sido maravilhosa mesmo sem o circo, embora nunca admitisse isso em voz alta.
— Se você está tão decepcionada, devia ter dito. Algumas libras a mais teriam garantido nossa entrada.
— Mas eles disseram que os ingressos estavam esgotados.
— Até mesmo a Ópera de Lyndon produz magicamente camarotes quando o dinheiro é suficiente.
— …Vai acabar falindo se continuar gastando desse jeito.
Ele riu, como se ela tivesse acabado de dizer a coisa mais absurda do mundo.
— Você realmente acredita nisso?
— Se o salário de um oficial da marinha é tão bom assim, talvez eu devesse ter me alistado.
— Não diga bobagens.
— Quem me dera ter nascido homem.
As palavras escaparam quase como um desabafo, mas carregavam uma verdade amarga. Se tivesse nascido homem, não seria tratada como uma moeda de troca em um casamento conveniente, nem como uma peça no jogo político da própria família. O título e as terras seriam seus por direito.
Apesar de todos os avanços conquistados ao longo dos séculos, Ingram permanecia preso a tradições antiquadas. A mais absurda delas era a lei que impedia mulheres de herdarem títulos e propriedades. E a família Somerset, sem fortuna acumulada, não possuía nada além do título e das terras que ainda restavam.
Em casos assim, normalmente procuram um marido disposto a adotar o sobrenome da esposa. Seu tio, porém, jamais abriria mão de um único centavo. Preferiria ver tudo perdido…
Mesmo que encontrassem um marido adequado, e mesmo que seu tio aceitasse o casamento, ainda restaria outra exigência: ela precisaria gerar um herdeiro homem para que a linhagem fosse preservada. No fim das contas, os títulos continuavam pertencendo aos homens.
— Está pingando.— A observação de River Ross a trouxe de volta à realidade. Vanessa rapidamente passou a língua no sorvete que começava a derreter. Comprado de um vendedor ambulante pouco antes de subirem na carruagem, ele tinha aquele sabor inconfundível das guloseimas de festival.
Era exatamente o mesmo sorvete que seu pai lhe dava às escondidas quando sua mãe não estava olhando. Naquela época, ela também o dividia com River Ross. A única coisa que parecia ter mudado desde então era o paladar dele. Depois de uma única mordida no sorvete que antes adorava, ele declarou que aquilo era intragável e o deixou de lado, olhando para ela como se fosse uma criatura estranha.
Enquanto terminava o sorvete com dedicação, a carruagem seguia em direção a mansão de Gloucester. Pouco depois, River Ross reduziu a velocidade até parar sob uma grande árvore, junto à muralha do castelo.
— Chegamos.
Ela não precisava que ele dissesse. A silhueta escura da mansão de Gloucester bastou para provocar o aperto familiar em seu peito. A breve e doce fuga chegara ao fim. Era hora de voltar à realidade. Depois de hesitar por um instante, Vanessa falou:
— Não podemos ficar mais um pouco?— Ela queria prolongar, nem que fosse por alguns minutos, a sensação de liberdade que ainda permanecia dentro dela.
— Logo vai amanhecer.
— Eu entro antes do nascer do sol. Disse que não queria ser incomodada porque estou doente.
— Sua criada ainda não desconfia?
— Ainda não. Tenho usado a mesma desculpa com frequência, mas, pelo visto, adoecer nessa idade é considerado perfeitamente normal.
— E que doença seria essa?
— Ficar doente antes de um casamento indesejado.
Theodore soltou uma risada baixa diante do sarcasmo dela. Era evidente que Vanessa não queria voltar.
— Então… Quer ficar aqui até o amanhecer.
— River… Ficaria comigo?
— Eu não me importo. Mas o que faremos até lá?
— Não precisamos fazer nada. É só que… Lá dentro parece que eu não consigo respirar.
