Tradução: Emma
Capítulo 163
— Não. É a primeira vez que ouço falar disso.
— Eu mostrei o testamento a ele primeiro. Depois disso, ele me deu uma grande quantia em dinheiro.
O rosto do mordomo, que estava indo e vindo silenciosamente entre o hotel e a casa principal, veio-lhe vagamente à mente. Eu trocara acenos com ele algumas vezes, mas nunca ouvirá diretamente o seu nome.
O mordomo do Duque chamava-se Norman, e seria apenas uma coincidência que tal nome saísse da boca do Senhor Wiltshire? Havia um aspecto perturbador em considerar isso apenas um caso de nome compartilhado. Para começar, o nome Norman não era assim tão comum…
Impulsionada por uma certa premonição, Vanessa desceu da cama como se estivesse enfeitiçada. Um canto de seu coração sentia-se desconfortável com a culpa de saber que não deveria estar ouvindo atrás da porta, mas ela não podia simplesmente ficar parada assim. Ela esgueirou-se para perto da fresta da porta.
— Então o artigo do jornal… Você vai fazer?
— Agendado… Para. Dois dias depois… Era isso?
As vozes colidiram e ecoavam contra o teto alto, de modo que ela não conseguia entender a conversa com exatidão. O que conseguia compreender eram em sua maioria apenas palavras curtas e cortadas. Artigo de jornal, título, dívida de jogo, certificado de investimento, e.
— Mansão de Gloucester… Mais… Outro.
Gloucester. Diante do nome familiar, seu estômago afundou abruptamente. Parecia um nó se apertando em um canto de seu coração. Ela mal exalou uma respiração endurecida pela tensão.
A conversa não durou muito mais depois disso. Logo, houve um sinal do mordomo saindo primeiro. Apenas após ter passado mais um pouco de tempo é que os passos familiares se aproximaram novamente.
Vanessa ficou ali como uma fera pega em uma armadilha, sem saber como resistir. A presença parou do lado de fora da porta. A sombra de um homem cobriu a luz que vinha através da fresta sob a porta.
— …
Ela adivinhou vagamente o que viria a seguir. O Duque provavelmente não abriria aquela porta novamente. Ao longo dos últimos três dias, ele não dormiu uma única vez na mesma cama que ela. Diferente da época no Jardim das Rosas, onde a pele deles estivera colada incessantemente até pouco antes do amanhecer.
Vanessa estendeu a mão devagar e colocou-a sobre a porta. Ela esperou por um tempo muito longo. Até que as lâmpadas a gás no corredor se apagassem, até que começasse a imaginar que podia sentir a respiração do homem parado além da porta, durante todo esse tempo.
— …
Os passos se afastaram novamente. Ao sinal dele se virando e partindo, Vanessa afundou silenciosamente no chão onde estava.
Ela preferia que ele tivesse aberto aquela porta. Ela esperava que ele a encontrasse ansiosa e a reassegurar de que não era nada. Como na vez em que a encontrara no navio. Como naquele dia em que enfrentaram a chuva torrencial juntos com seus corpos inteiros.
Ainda que soubesse que o “River Ross” que conhecera não estava em lugar nenhum para ser encontrado.
Após remoer sobre isso por dois dias inteiros, ela chegou a duas conclusões. Que o “Norman” que o senhor Wiltshire mencionará poderia ser verdadeiramente o mordomo do Duque. E que ela poderia não ser mais uma integrante da sociedade aristocrática.
Essa fora a conclusão a que chegara após juntar as palavras fragmentadas que ouvira naquela noite. Parecia que as dívidas de jogo de Wyatt, que haviam vencido, haviam inchado incontrolavelmente e, por causa disso, ele vendeu a mansão de Gloucester. Se chegar ao ponto de colocar a mansão à venda, significava que Wyatt já fora empurrado ao limite.
“Depois da mansão de Gloucester, serão as terras atreladas ao título. Isso é provavelmente tudo o que resta a Wyatt agora.”
Comprar e vender terras concedidas com um título geralmente tinha restrições severas. Mas o poder sempre afrouxava a fronteira entre o ilegal e o legal. Se o próprio Duque estivesse liderando o negócio, o resultado seria em última análise o que ele desejasse.
Ela já resolveu seu apego por Gloucester. Porque decidira não considerar mais Wyatt como família. Existia o medo e o pavor de deixar um lugar familiar, mas, que ele vendesse o título ou entregasse a mansão, agora era apenas a propriedade de outra pessoa. O problema restante era…
Seus olhos cinzentos, que eram límpidos, anuviam-se ligeiramente à medida que seus pensamentos mudam abruptamente.
“Norman. Aquele homem é provavelmente, de fato, o mordomo do Duque.”
Se o “Norman” que contatará o senhor Wiltshire era o mordomo do Duque, então era altamente provável que o Duque estivesse ciente da existência da sociedade limitada há algum tempo.
“Quando diabos terá sido isso?”
Seria bom se ela tivesse uma maneira de contatar o senhor Wiltshire pessoalmente, mas, no momento, encontrar um método era difícil. Além disso, aquelas verdades terríveis que aprendera enquanto rastreava a existência da sociedade limitada e do testamento…
“Será que o Duque já sabia de tudo, até mesmo o segredo envolvendo a morte de meus pais?”
Vanessa soltou um suspiro cansado. Pensou que já havia desapegado de muito em relação àquele homem, mas o fato de que poderia haver mais a desapegar era sufocante.
Desde o início, ele em Lyndon era excessivamente não familiar. Havia algum abismo insondável e vasto entre o “Duque” frio e autoritário e o “River” no Jardim das Rosas.
O que diabos foi a causa que o fizera mudar tanto? Será que tudo sobre o comportamento dele no Jardim das Rosas foi uma mentira? Ou algum evento súbito o estava impulsionando?
Quando ele entrava nela, o olhar do homem às vezes carregava desespero. Conforme afrouxava a gravata que sufocava seu pescoço, até mesmo a impaciência transbordava das mãos que a puxavam para perto. Às vezes, Vanessa tentava encontrar traços de afeto em tais coisas. Era claramente uma ilusão, mas ela sentia que só conseguiria respirar se agisse assim.
Vanessa sentou-se com as pernas encolhidas, descansando a bochecha nos joelhos; o céu do lado de fora da janela estava tão nublado quanto seu humor. Ela tocou o sinete e chamou a criada.
— Você poderia me trazer o jornal?
A criada que veio ao som da sineta pareceu um tanto sobressaltada. Ela parecia como se só agora tivesse se dado conta de que Vanessa era alguém que podia falar com ela.
Até agora, Vanessa não pediu nada e passou a maior parte do tempo dormindo como uma fera preguiçosa. Nesse sentido, era compreensível ficar surpresa…
— Apenas um momento, Senhorita.
A criada curvou-se polidamente, foi até o escritório, trouxe os jornais colocados sobre a escrivaninha do Duque e os depositou diante dela. O Ingram, Lyndon Daily, The Post, The Telegraph… Todo tipo de jornal disponível no mercado fora colocado sobre a mesa.
Ela pegou o Ingram do topo.
“Não parece haver nenhum artigo especial.”
Dois dias depois. Artigo de jornal. De acordo com a conversa daquela noite, um artigo de notícias influenciado pelo Duque deveria ter aparecido nos jornais de hoje. Mas não importava o quanto procurasse, não parecia haver nenhum conteúdo relacionado a Battenberg. Comentários sobre novas leis fiscais passadas no parlamento, declarações de membros da Câmara dos Comuns sobre leis de trabalho infantil, uma greve em uma fábrica de tintas, até mesmo um anúncio pedindo ajuda para encontrar um cão perdido.
Foi no exato momento em que ela estava prestes a passar para a página seguinte, além dos artigos monótonos e ordinários. Subitamente atingida por uma sensação de incongruência, Vanessa pegou a primeira página do Ingram novamente. A primeira página do jornal, isto é, a data que deveria estar impressa no topo…
“Sumiu.”
Ela checou o Lyndon Daily, o The Post e o The Telegraph um após o outro. As datas que toda editora de jornal imprime bem no topo estavam todas cortadas.
Como se os próprios jornais tivessem encolhido e a parte superior tivesse sido fatiada… Vanessa tocou o sinete e chamou a criada.
— Há algo mais que eu possa fazer pela Senhorita?
— O jornal…
Vanessa, que estava prestes a pedir um novo, mal conseguiu fechar a boca. Se eles haviam deliberadamente cortado o topo com algum propósito e trazido jornais com datas diferentes, deixá-los saber que ela percebera o truque não traria bem algum.
Vanessa sorriu conscientemente e dobrou os jornais com esmero.
— Terminei de lê-los. Você poderia colocá-los de volta no escritório?
— Farei isso, Senhorita.
A criada pegou os jornais mansamente. Vendo o alívio no rosto jovem da criada, um canto da cabeça de Vanessa esfriou.
O período restante do contrato que o Duque mencionará, um lugar seguro para se esconder da interferência de gangues, o tempo que levaria para a herança ser completamente finalizada… Uma possibilidade em que ela não pensara até agora, embalada pela conveniência, floresceu dentro de sua ansiedade.
E se ele não tivesse a intenção de deixá-la ir mesmo após os dez dias passarem? Ela confiaria ingenuamente na promessa até agora, mas o Duque era, na verdade, um homem que a enganara terrivelmente.
— …
Com o rosto agitado, Vanessa levantou-se e começou a andar de um lado para o outro na sala de estar. Uma vez encarada a situação de frente, ela não conseguia ficar parada de forma alguma. Havia apenas estranhos ao seu redor, e o Duque estava controlando toda a informação que chegava até ela.
Se o Duque a aprisionasse daquela forma, ninguém se importaria. Além disso, aquele homem estava escondendo algo mais.
“Eu tenho que descobrir o que é.”
Para fazer isso, precisava de uma desculpa plausível para sair naturalmente. Seria ainda melhor se fosse um lugar onde pudesse se desvencilhar temporariamente da criada destacada para vigiá-la. Algum lugar como um provador em uma loja de roupas ou o consultório de um médico em um hospital…
Conforme girava seus pensamentos devagar e olhava ao redor do cômodo, seus olhos caíram sobre a garrafa de uísque colocada no console. Como se estivesse enfeitiçada, Vanessa aproximou-se do bar e pegou a garrafa de bebida com as mãos trêmulas. Tirou os chinelos e pisou no chão descalça.
“Eu não queria chegar a este ponto.”
Ela fechou os olhos com força e atirou a garrafa contra o chão.
