Jardim de Maio [Novel]

A herança de Vanessa, após a morte de seus pais, era uma montanha de dívidas e um casamento arranjado. Seu tio ganancioso a vendera avidamente para ser a mais recente noiva de um conde idoso. Para romper o noivado, ela precisava de um escândalo. Um escândalo verdadeiramente terrível, que absolutamente arruinará sua reputação, *** “Vanessa.” “…” "Acha sua vida tão tediosa assim?”, perguntou ele, incrédulo, “Para escolher desperdiçá-la se envolvendo com alguém como eu?”

Capítulo 162

Capítulo 162

Tradução: Emma

Capítulo 162


Era a voz do mordomo Norman. Theodore levantou-se da cama sem pressa. Amarrando o ropão que vestira frouxamente, ele abriu a porta, e uma luz brilhante derramou-se para dentro do quarto escuro. O Duque estreitou os olhos e esperou para se acostumar com a claridade.

— O que houve?

— Um documento que requer sua confirmação imediata. Chegou pelo correio especial.

Theodore checou o selo estampado do lado de fora do envelope entregue por Norman. Demuir, Langval, Serb… Eram todos relatórios relacionados a negócios baseados no exterior. Theodore, que se moverá para o escritório do outro lado do corredor, primeiro caminhou até o bar e se serviu um uísque âmbar em um copo. Precisava de algo forte para clarear a mente.

— Deseja que eu prepare outra bebida para o senhor?

Norman, que o observava ansiosamente, acrescentou uma palavra. Ele era uma daquelas pessoas acorrentadas pelo preconceito de que o uísque era uma bebida indigna para pessoas de classe baixa.

— Está bem assim.

Theodore engoliu devagar o destilado até a garganta. O ardor áspero e pungente, como se fosse queimar sua garganta, apagou a sensação remanescente de Vanessa em seus lábios.

Caminhando até a escrivaninha com o copo na mão, ele abriu o envelope do documento. Levou exatamente esse tempo para que sua expressão um tanto relaxada afundasse em uma fria indiferença.

Seus olhos examinando os documentos um a um estavam calmos. A luz da lâmpada a gás pousava suavemente em sua nuca firme e ligeiramente curvada. Após um longo silêncio, ele finalmente pegou a caneta-tinteiro sobre a escrivaninha. A assinatura foi concisa.

— Está procedendo sem problemas. Entregue esta lista a Edgar até amanhã. Siga reduzindo os investimentos até o ano retrasado e focando mais nos negócios domésticos.

— E quanto ao lado de Nordt? Parece que ainda estão enfrentando dificuldades. Dizem que as autorizações de importação e exportação estão difíceis de obter. O ministro recém-nomeado parece estar adotando uma postura rígida.

— Envie alguém ao Conselheiro Dudley até amanhã de manhã. Um jantar deve ser apropriado.

— Entendido.

Theodore sentou-se na cadeira e examinou os documentos restantes. Enquanto isso, Norman, que recolhera silenciosamente o copo agora vazio, colocou uma xícara de chá com um vapor quente subindo suavemente em seu lugar.

— O senhor realmente acha que a guerra vai estourar?

Sua voz tremeu, diferente do velho homem sempre composto. Theodore perguntou sem sequer tirar os olhos do documento que estava olhando:

— Está com medo?

— Ainda não consigo compreender totalmente. Apenas penso que… Deve haver uma razão para o senhor estar se apressando, mesmo ao custo de ter prejuízos.

— …

— Também quero acreditar que, mesmo que aconteça, seremos capazes de desviar disso.

Theodore não respondeu imediatamente. Além do som ocasional de páginas virando e assinaturas sendo feitas, um silêncio sem palavras fluiu. O Duque, tendo checado até a última página do documento, finalmente ergueu a cabeça. Seus movimentos ao arrumar os papéis eram impecáveis.

— O ultimato de Trasen não será aceito.

Norman percebeu um compasso atrasado que aquela era a resposta para sua pergunta.

— A Grã-Duquesa já foi assassinada, e Peyetre não tem condições de pagar uma indenização enorme. A situação financeira daquele país é ainda mais extrema do que o público imagina.

— …

— A guerra definitivamente vai estourar. Como cada um tem um aliado para lhe dar suporte, é provável que escale para uma guerra em grande escala em breve. Especialmente Erman entrará de bom grado neste jogo.

Inclinando-se para trás na cadeira, Theodore apoiou o queixo nas costas da mão. O que fora anunciado através dos jornais, o que ainda não fora anunciado, e o que jamais deveria ser anunciado. A conclusão tirada ao compilar os materiais relatados de vários lugares apontava para apenas uma coisa.

Na melhor das hipóteses, no outono. Na pior, no inverno. A guerra definitivamente começaria dentro desse prazo.

— Dez dias após a declaração de guerra, a aliança Trasen-Erman avançará para a fronteira de Rabia. Como lobos de olho em uma ovelha gorda, eles exigiram a abertura da estrada para Peyetre e, mediante a recusa, a guerra será declarada novamente usando isso como pretexto.

— …

— E, infelizmente, Ingram é aliada de Rabia. Portanto, a participação é certa, Norman.

O Duque, levantando-se da cadeira, caminhou de volta ao console. Encheu um novo copo com uísque novamente. A guerra em si não era o problema. O problema, se houvesse algum, era unicamente Battenberg. Em uma situação onde Erman se tornara inimiga, um nome excessivamente germânico e alheio. Uma linhagem que, traçada de volta às suas raízes, levava a uma família ducal da nação inimiga.

Provar o patriotismo através da participação na guerra era algo certo, mas a ganância do Rei era infinita. Usando o pretexto de que Battenberg carecia de um herdeiro adequado para herdar seu legado, o Rei estava empurrando outra mulher para cima dele.

“O filho de Morton morreu. Ele tinha quatorze anos este ano, um trágico acidente de equitação. Graças a isso, espera-se que Hailey Morton se torne uma herdeira rica. Agora, o homem que se casar com aquela mulher sucederá a tudo de Morton. Eu gostaria que esse homem fosse você.”

“…”

“Se você realmente não aprecia Morton, há sempre a sua amante. Embora eu não tenha certeza se Somerset sequer manterá seu título adequadamente até a guerra começar.”

Mencionar Somerset era o equivalente a demonstrar que ele sabia de suas atividades. Desde que ele anulara o casamento com a princesa e praticamente desaparecera, apagando seus rastro no sul, o olhar do Rei tornara-se mais persistente.

Ele realmente achou que deixei aquela vigilância mesquinha e transparente em paz porque me faltava poder para pará-la?

Era essencialmente não era diferente de um jogo de cartas onde ambos os lados revelam todas as suas mãos. Não havia razão para que sua resposta fosse nada além de composta.

“Lidarei com isso apropriadamente para que as suas preocupações não se materializem.”

O Rei olhara para ele como se visse algo que estava muito relutante e desgostoso de entregar a outros. E sutilmente acrescentara:

“Sem um título e uma reputação apropriados, você não pode provar nada. Com uma princesa, ninguém ousaria suspeitar de traição. Você saberia disso melhor do que ninguém.”

Em última análise, o propósito de convocá-lo até o palácio de forma tão conspícua devia ter sido esse. Como não podia quebrar um acordo já feito, ele tinha que dar um jeito de persuadi-lo. Theodore soltou um suspiro cansado.

Sem uma aliança de casamento adequada com uma família apropriada, ele não poderia participar da guerra. A maioria dos negócios de Battenberg era baseada em Ingram. Era uma era em que os nobres cumprirem seus deveres era algo tomado como certo, e não participar significava trair a honra. Sem honra, não havia futuro para a família.

O cálculo era simples, e Hailey Morton era meramente melhor do que a princesa. Somerset era inadequada sob todos os aspectos. Ele não tinha um gosto perverso por escolher algo incômodo e problemático quando havia uma solução fácil.

Se o casamento era uma tarefa que tinha que ser absolutamente realizada, era melhor como uma transação de qualquer forma. Onde a vida matrimonial de seus próprios pais, que começara com afeto, em última análise chegara? Ele engoliu uma risada seca. Fora um túmulo terrível.

— Então, e quanto ao artigo do jornal?

— Publique conforme o planejado. Era em dois dias?

— Sim. Procederei de acordo.

O velho mordomo, que curvara a cabeça respeitosamente, continuou suas palavras como se tivesse se lembrado subitamente de algo:

— E… Houve um contato daquele lado.

— Ah.

— Recuperei todos os certificados de investimento colocados a um preço baixo na casa de jogos. Houve despesas durante o processo, mas estavam dentro da margem que o senhor antecipou. Lidou com isso apropriadamente.

— É esse o recibo?

Norman assentiu e colocou maços espessos de papel sobre a escrivaninha.

— Dizem que estão procurando por aqui e por ali para vender suas terras com título. Parecem pretender juntar dinheiro e cruzar para Nordt.

— O escopo exato?

— Todas as terras de propriedade da família. Entre elas, alguns lotes já estão hipotecados. Metade do Castelo de Gloucester aparentemente já pertence a outra parte.

— Haverá algum problema em garantir a propriedade total?

— Não. Nossos homens já fizeram contato. Assim que os detalhes forem coordenados, concluiremos a transação até hoje.

— Faça isso. Aumente o número de pessoas ao redor.

— Sim.

— Meu Senhor. — Pouco antes de fechar a porta e sair, o velho mordomo chamou-o silenciosamente. Theodore virou-se, colocando seu copo sobre o console.

Ele leu conflito no rosto de Norman. Emoções internas obstinadas, como a lealdade, colidiram, causando um leve tremor no rosto rígido do velho homem. Justo quando estava ficando curioso sobre qual poderia ser o assunto, Norman alinhou sua expressão e ereto a postura.

— Não é nada. Vejo o senhor amanhã.



A mente dela estava turva. Não sabia quanto tempo se passara. Vanessa, incapaz de espantar rapidamente sua sonolência, esfregou a bochecha contra o travesseiro. A luz carmesim que se esgueirava pela fresta da porta foi em direção as suas pálpebras delicadas.

Vozes abafadas eram fracamente ouvidas de além da porta firmemente fechada. Dentro da conversa que continuava silenciosamente, Vanessa reconheceu uma voz familiar. River, não, o Duque. Era a voz daquele homem… O fluxo da conversa parecia ser sobre assuntos de negócios, depois mudou para guerra. E então.

“Portanto… Essa é a situação, Norman.”

Norman. No momento em que ouviu fracamente aquele nome, seus olhos se abriram num estalo.

“Na verdade, antes de receber o contato, alguém se aproximou de nós. Chamado Norman… É um nome que você conhece?”