Tradução: Emma
Capítulo 160
Seu corpo parecia quente, tendo acabado de acordar do sono. Vanessa encostou a bochecha aquecida contra o peito do Duque. A pele do homem, resfriada após estar úmida, parecia mais gelada do que o ar abafado da noite de verão. Antes que seu perfume fosse reaplicado, sua pele carregava um aroma fresco e limpo.
— Ainda estou com sono. Ainda não terminei de escrever, então deveria me levantar…
— Feche os olhos por um instante. Eu a acordo quando o jantar estiver pronto.
Assim que passaram pelo corredor, a porta que levava ao quarto surgiu à vista. A cama estava perfeitamente feita. Cada traço do que ela tentava desajeitadamente arrumar e esconder em sua vergonha fora completamente apagado. Seus lábios secaram novamente. As criadas deviam ter visto cada sinal da maneira animalesca com que eles haviam se acasalado desde a manhã…
Seu corpo foi pousado sobre os lençóis que cheiravam a limpeza, e ela reclinou-se suavemente. Mesmo em meio aos seus pensamentos conturbados, o toque do homem — apoiando a cabeça dela com um travesseiro e cobrindo-a com um edredom — era meticuloso.
Com o rosto ligeiramente corado, Vanessa olhou para cima, para o Duque, enquanto ele erguia o corpo sobre ela. Ele realmente parecia intencionado a deixá-la descansar. Era uma mudança em relação às noites dos últimos três dias, nas quais ele a seduzira de todas as formas possíveis e reivindicara seu corpo inteiro.
Enquanto ele caminhava em direção à janela, Vanessa falou impulsivamente para as costas dele:
— Eu tive um sonho há pouco.
Sua voz baixa soou estranha até para os seus próprios ouvidos. O Duque, que estava puxando as cortinas, virou a cabeça ao som. Seus olhos profundos e retos contemplaram-na atentamente através da escuridão.
O homem aproximou-se com uma expressão calma e sentou-se na borda da cama. Seu toque ao afastar o cabelo grudado na testa suada dela era desapegado, sem carregar nenhum fervor particular.
— Foi um pesadelo terrível?
Sua voz a seguir também estava bastante fria. Conversar tão pacificamente assim quase lhe dava a ilusão de que o sonho sem sentido que acabara de ter ainda continuava.
Hahaha. A risada límpida e aguda de uma criança que ela ouvira no sonho ecoou em seus ouvidos como uma alucinação. Um campo transbordando de botões de flores brancas, a luz do sol jorrando através das folhas como pontos de luz, Dália latindo feliz, uma criança pequena de cerca de três ou quatro anos correndo para pegar um chapéu levado pelo vento, e…
— Talvez.
Um sorriso autodepreciativo tremeu em seus lábios secos antes de desaparecer. Não importava o quão vívido e palpável tivesse parecido, era apenas um sonho. Ela sentia como se tivesse sido trazido por algum grande sentimento remanescente e soltado uma tolice em forma de lamento.
Especialmente diante do homem em relação ao qual prometera firmemente nunca mais baixar a guarda… Vanessa reuniu resolutamente seus pensamentos.
— Não foi nada. Apenas… Algo sobre um tempo melhor.
— Me conte.
— …Você realmente quer ouvir?
Quando ela olhou para ele como se perguntasse se ele falava sério, um canto de sua boca curvou-se para cima. Seus olhos, que estavam submersos em frieza, finalmente começaram a suavizar.
— Sim. Eu quero ouvir.
— Bem, havia pessoas.
Vanessa pausou por um momento antes de continuar.
— O lugar era provavelmente um campo na Floresta de Linus. Ao longe, na borda da floresta, eu podia ver Mary e o senhor Ross. Era final de primavera, e as flores silvestres brancas estavam em plena floração. O vento soprava. Não sei quantos anos haviam se passado… mas Dália estava lá com alguns filhotes pequenos. E…
Você estava lá também. Ela mal conseguiu engolir as palavras que não teve coragem de proferir. A miséria de perceber a realidade finalmente a lavou como uma onda lenta.
Os sonhos refletem fielmente os desejos de quem sonha. Não importa o quanto se negue na superfície, o coração não pode ser enganado. No fim das contas, o cenário que ela desejava no fundo de sua alma era aquele tipo de vida. Coisas que o homem diante dela jamais poderia lhe dar.
— E?
— Esse é o fim.
Vanessa mordeu o lábio com força. Gotículas de sangue brotaram novamente em seu lábio ferido. Pouco antes que pudesse escorrer, ele estendeu a mão e segurou a cabeça dela, virando-a devagar em sua direção.
— ……
A partir do momento em que seus olhos encontraram os dele, um anseio feroz e incontrolável fervilhou do fundo de seu ventre. Mesmo agora.
Suas entranhas se contorceram com uma sensação repugnante de auto aversão. Às vezes, seu corpo e sua mente nem pareciam seus.
Em alguns dias, o mero cheiro de comida fazia seu estômago embrulhar; em outros, ela desejava frutas azedas e suculentas a ponto de enlouquecer. Sempre que isso acontecia, ela fechava os olhos e contava números de trás para frente. Exalando devagar, agarrava o próprio braço e suportava até que o impulso passasse. Ela não podia demonstrar nenhum sinal relacionado à gravidez diante daquele homem.
Ela baixou devagar as pálpebras febris, forçando sua respiração entrecortada a se acalmar.
— Estou cansada. Vou dormir agora.
— Vanessa.
Uma estranha calidez podia ser sentida na voz que chamava seu nome. Ele pressionou sua mão grande sobre o pulso dela, que jazia inerte sobre a cama, como se tentasse reprimir um surto repentino de ansiedade com a sensação tangível da pele dela.
Não doeu. No entanto, havia um nítido senso de pressão. E, em momentos assim, uma longa conversa costumava se seguir.
— ……
Enquanto ele inclinava a parte superior do corpo para baixo, uma sombra escura caiu sobre o rosto dela. Seus narizes se roçaram quando ele se aproximou, e então seus lábios se esfregaram, ficando úmidos enquanto mordiam um ao outro. A língua dele entreabriu a passagem e enredou-se com a dela famintamente.
Ele estava excepcionalmente vigoroso hoje. Toda vez que ela sobressaltava-se ou tentava se retirar, ele a perseguia e a aprisionava completamente. Era como se não fosse ficar satisfeito até arrancar ao menos um único gemido da garganta dela.
Pouco antes de a mão grande que segurava sua cintura deslizar para cima para agarrá-la, duas batidas soaram na porta do quarto. Era o sinal polido de que o jantar estava pronto na sala de jantar.
Os olhos de Vanessa abriram-se num estalo. O Duque também parecia recobrar os sentidos apenas então. Ele lambeu devagar os lábios dela, que reluziam com a saliva dela.
— Continuo sentindo uma leve febre vindo de você.
— Provavelmente é… Apenas um resfriado.
— Nem mesmo cães pegam resfriados de verão, Vanessa. E você não tem outros sintomas além da febre.
— Então deve ser porque estou cansada. Muita coisa aconteceu ultimamente.
— Após o jantar, chame o médico para um exame. A partir de amanhã, farei com que o médico ducal fique alojado no andar de baixo.
— Não! Está tudo bem!
Vanessa ergueu a voz com urgência e sentou-se. Diante de sua reação hipersensível, os olhos do homem estreitaram-se ligeiramente. Ela agarrou a manga do Duque quando ele se levantou para tocar o sinete.
O olhar frio e afundado dele acompanhou a reação desesperada dela, como se refletisse sobre ela.
— Minha saúde sempre foi assim. Mas os médicos só me dizem para tomar remédios… Então.
— ……
Será que ele a achava suspeita? Provavelmente sim. Vanessa espremeu o cérebro em busca de um pensamento. Tinha que encontrar um tópico para desviar a mente dele daquele assunto. Por exemplo…
— Como foram os negócios para os quais você saiu hoje? Foram bem resolvidos?
Naquele momento, a linha da boca do homem endureceu ligeiramente, como se ela tivesse tocado em um tópico que não deveria ser abordado. Seu coração afundou diante da tez friamente obscurecida dele, mas, no fim das contas, foi uma boa escolha. Ao menos, parecia ter desviado a atenção dele do médico e de sua saúde.
— …Sim. Tomei uma decisão.
— Isso é um alívio. Você esteve ocupado com isso por um tempo.
— Fui impulsionado como uma fera. No entanto, cobrei um preço alto por isso.
— Você fez a escolha certa, não fez?
Ele encarou Vanessa em silêncio. Como nem mesmo uma lâmpada a gás estava acesa, o quarto estava inteiramente submerso na escuridão, tornando seus traços quase invisíveis.
— Em que você está pensando tão profundamente?
— Em nada.
Sua voz desprovida de paixão soou um tanto seca. Seu rosto, enquanto sepultava os lábios contra os dedos dela, parecia surpreendentemente ansioso.
— Eu estava pensando em como deveria persuadi-la pelo restante do nosso tempo.
O que ele queria era, de fato, claro. O direito de monopolizar os corpos um do outro por um período. A própria relação que o mundo chamava de serem amantes ou de uma concubina.
Talvez… Ela pudesse ter concordado com esse relacionamento por um curto período. Não porque se amasse menos, mas porque o amava muito mais.
Se ao menos ela pudesse esconder a criança. Se ao menos seu ventre nunca inchasse, para que o Duque jamais soubesse que seu filho ilegítimo fora concebido. Se ao menos, mesmo que ouvisse notícias dela criando uma criança no futuro, ele jamais adivinhasse que era do seu próprio sangue e simplesmente esquecesse.
— ……
A força puxando seu queixo, que havia caído, era intensa. Na escuridão, os olhos azuis do Duque brilhavam com um lustre estranho. Como os de uma fera.
— Diga-me que você vai estender o contrato, Vanessa.
— ……
— Diga-me que você vai ficar ao meu lado, não importa o que aconteça.
