Jardim de Maio [Novel]

A herança de Vanessa, após a morte de seus pais, era uma montanha de dívidas e um casamento arranjado. Seu tio ganancioso a vendera avidamente para ser a mais recente noiva de um conde idoso. Para romper o noivado, ela precisava de um escândalo. Um escândalo verdadeiramente terrível, que absolutamente arruinará sua reputação, *** “Vanessa.” “…” "Acha sua vida tão tediosa assim?”, perguntou ele, incrédulo, “Para escolher desperdiçá-la se envolvendo com alguém como eu?”

Capítulo 131

Capítulo 131

Tradução: Amme

Capítulo 131


Mas Vanessa não cedeu à tentação imediatamente, desta vez. Suas bochechas esquentaram, e ela mordeu de leve os lábios avermelhados. No entanto, seu olhar, que se encontrava fixo nos dele, estavam mais claros do que nunca.

— River Ross.

Um canto da boca do homem se curvou para cima. Ele já sabia que ela só gostava de dizer seu nome em voz alta.

— Você está bravo, não está?

A pergunta o atingiu bem no peito. Por um breve instante, ficou sem palavras antes que uma risada baixa finalmente lhe escapasse.

Ela era uma mulher que constantemente revelava percepções inesperadas nos momentos mais estranhos. A essa altura, era quase impressionante.

Ainda assim... estaria ele bravo? Não tinha certeza. A situação simplesmente parecia irritantemente complicada.

Originalmente, jamais pretendera aparecer diante dela por esta noite. Não havia já preparado salvaguardas mais do que suficientes por causa desta garota?

O colar.

Os oficiais da marinha seguindo-a discretamente a distâncias fixas.

Os tripulantes estrategicamente posicionados em todos os lugares onde o olhar dela pudesse recair.

Até mesmo o pequeno incômodo de providenciar uma cabine maior e mais confortável para ela.

Aquilo deveria ter sido suficiente. Muito mais do que o suficiente, na verdade, por conta de uma única mulher.

E, naquela noite, ele estava a bordo daquele navio apenas como um oficial da marinha. O convite enviado ao Duque de Battenberg fora oficialmente recusado com impecável cortesia.

Naturalmente, seu nome verdadeiro não aparecia em lugar algum da lista de passageiros, o que convenientemente poupava o rei do incômodo de comparecer pessoalmente à cerimônia de partida.

Uma exibição bizarra de orgulho da realeza, recusando-se a aparecer em um lugar que o próprio duque havia rejeitado. Considerando o quanto o rei desejara embarcar no Bellus, o maior navio do continente, era uma teimosia absurda.

Ainda assim, do ponto de vista de Theodore, este mesmo orgulho havia lhe sido conveniente. O motivo pelo qual ele embarcara no navio em segredo não tinha nada a ver com Vanessa. Nem com exibir seu status ou sua reputação.

Era puramente por motivos políticos e de negócios. Todas as famílias influentes de Ingram estavam reunidas a bordo naquela noite. Isto lhe proporcionava uma oportunidade de resolver, em um só lugar, todo o trabalho que ficara atrasado enquanto permanecera confinado em Gloucester. Não era algo que surgisse todo dia.

Cada segundo precisava ser aproveitado como se fosse uma hora. Se tudo tivesse saído conforme o planejado, ele já deveria estar agora numa sala privada e restrita, reunido a sós com o primeiro-ministro.

E, no entanto...

Não fora capaz de ignorar aquela expressão mortalmente pálida no rosto de Vanessa, como se por um instante tivesse soltado a mão dela.

Ridículo.

Às vezes, antes mesmo que percebesse, seus olhos se desviavam para ela.

Observando-a correr de um lado para outro na terceira classe sem perceber que podia ser vista do convés superior. Observando-a rejeitar pratos luxuosos apenas para beliscar doces aleatórios, em vez disso. Observando-a se agachar no chão sujo para ajudar sua criada.

Toda vez que a conferia, entre conversas com políticos, ela estava sempre ocupada fazendo alguma coisa.

E, considerando que ela mencionara Logan Dawson mais cedo apesar de nunca ter percebido que ele a observava, talvez fosse justo admitir que ela possuía instintos mais afiados do que ele lhe dera crédito.

— Talvez.

A admissão silenciosa veio somente após um longo silêncio. As bochechas da mulher coraram ainda mais profundamente, como resultado.

O quarto estava na penumbra, iluminado apenas pelo luar que se derramava pela janela. Ambos estavam cobertos apenas pela luz azul e pálida.

— É porque estava preocupado comigo?

— Preocupado?

Devagar, ele se abaixou e recolheu as páginas amassadas espalhadas pelo chão. Seus olhors pousaram brevemente sobre a cópia do testamento. Então, seguindo as dobras com cuidado, ele dobrou os papéis com esmero e os colocou sobre o console com calma precisão.

Vanessa observou seus movimentos como se os gravasse na memória. Então, de repente, corou novamente.

— ...Ou talvez não. Ultimamente você tem agido estranho o bastante para me fazer entender tudo errado.

— Estranho?

— Bem, você me observa com esse olhar...

— Que tipo de olhar?

Vanessa não respondeu de imediato. Em sua pausa, ele estendeu a mão e ergueu o seu queixo com uma mão larga. Os olhos cinza-claros de Vanessa tremeram levemente, como asas de borboleta presas por um alfinete, enquanto o encaravam de volta.

— Quando sinto seu olhar sobre mim...

A voz dela mal passava de um sussurro. Ele se inclinou mais perto para ouvi-la melhor. Suas respirações se misturaram na escuridão entre ambos.