Jardim de Maio [Novel]

A herança de Vanessa, após a morte de seus pais, era uma montanha de dívidas e um casamento arranjado. Seu tio ganancioso a vendera avidamente para ser a mais recente noiva de um conde idoso. Para romper o noivado, ela precisava de um escândalo. Um escândalo verdadeiramente terrível, que absolutamente arruinará sua reputação, *** “Vanessa.” “…” "Acha sua vida tão tediosa assim?”, perguntou ele, incrédulo, “Para escolher desperdiçá-la se envolvendo com alguém como eu?”

Capítulo 1

Capítulo 1

Tradução: Emma

Capítulo 01


Era ele. embora o tivesse visto apenas de longe, uma centelha de reconhecimento se acendeu dentro de Vanessa. Mesmo em meio à multidão, ela não poderia confundi-lo.

— Vanessa.

O simples pensamento dele coloriu suas memórias reprimidas com tons vívidos e aromas marcantes: uma noite abafada de verão, o ar úmido, seu hálito quente, um jardim de rosas em plena floração e aquela voz.

— Estive esperando por você.

Sua respiração falhou. Aquilo era uma alucinação, um fantasma nascido daquela noite? Ou talvez uma cruel e indesejada imagem residual, ousada o bastante para assombrá-la até mesmo à luz do dia? Não podia ser real. Como ele poderia estar ali? Eles estavam em guerra, e ele era um oficial das fileiras inimigas....

— Você está bem?

Uma mão segurou o ombro de Vanessa quando ela cambaleou, perdida na enxurrada de lembranças. Assustada, se afastou e encontrou o rosto preocupado de uma desconhecida.

— Está pálida como um fantasma, senhorita. Trabalho naquele hospital ali.

A mulher, vestida com um uniforme de enfermeira, falou com uma voz clara e vibrante. Vanessa abaixou rapidamente o chapéu. Agora, até os transeuntes da movimentada rua do mercado lançavam olhares curiosos em sua direção.

— Estou bem. Obrigada.

— Não parece. Espere aqui. Só um instante....

—[Não. Eu preciso ir.

Seu sotaque havia sido convincente o suficiente? Já não importava. Vanessa se afastou às pressas, acelerando o passo enquanto deixava a rua do mercado para trás.

Ela precisava voltar para casa. Primeiro, precisava enviar uma mensagem ao Marquês de Winchester, confirmando os preparativos para sua saída de Amiens. Se isso não fosse possível, teria de colocar seu filho em segurança antes de qualquer outra coisa....

— Ah!

Como sempre, a desgraça vinha em dobro. Vanessa tropeçou em uma pedra solta do calçamento e caiu. A sacola de papel com as compras que carregava se amassou, espalhando seu conteúdo pelas pedras sujas da rua.

Batatas, pão e a preciosa lata de fórmula infantil que conseguira obter... Ela rolou pela rua até finalmente parar junto à bota polida de um oficial que se aproximava. Vanessa congelou no meio de sua tentativa desesperada de recolher as batatas espalhadas.

Por quê? A visão das botas impecáveis do oficial reacendeu aquelas memórias fantasmagóricas, transportando-a de volta aos jardins daquela estação distante. O aroma de sândalo, sua fragrância característica, não poderia estar impregnando aquele beco imundo.

Vanessa manteve a cabeça baixa, incapaz de erguer os olhos. Pelo canto da visão, viu-o se abaixar graciosamente e apanhar a lata do chão. Um silêncio terrível se instalou.

— Senhorita Vanessa.

Ele finalmente pronunciou seu nome, a voz carregada de um riso incrédulo. Ah. O momento em que uma vaga premonição se transformava em realidade era sempre surreal de tirar o fôlego. Ela finalmente reuniu forças para erguer os olhos. Lá estava ele, parado na extremidade do beco, banhado pela pálida luz do sol que atravessava as frestas entre os prédios deteriorados.

Theodore. Seu usurpador. Seu encantador enganador. O homem que ela havia deixado para trás naquele jardim, tantos anos atrás.

— Eu pensei... pensei que estivesse perdendo a sanidade. Seus lábios vermelhos se curvaram em um sorriso torto. Sua pele estava um pouco mais bronzeada do que se lembrava, seu físico mais robusto preenchia melhor o uniforme de oficial da marinha. Seus olhos estavam mais afiados, suas bochechas um pouco mais finas....

Ainda assim, ele continuava absurdamente bonito, um homem cujo simples olhar ainda era capaz de abalar sua alma.

— Diga-me. Por que você está aqui, desse jeito? Seus olhos, um turbilhão de emoções, acabaram se acomodando em uma zombaria preguiçosa.

Vanessa fechou os olhos, incapaz de sustentar seu olhar. Por que estava ali, daquele jeito? Para explicar isso, teria de voltar ainda mais no tempo, até o verdadeiro começo....



A felicidade chega de forma sutil, muitas vezes sem ser percebida. A desgraça, porém, anuncia sua chegada com brutal clareza. E a desgraça raramente vem sozinha. Vanessa Siren Somerset aprendeu essa verdade na primavera, apenas duas semanas antes de completar treze anos.

— Tudo será diferente agora.

O homem, que estava em silêncio até aquele momento, finalmente falou quando o trem chegou à Estação de Bath. Vanessa, que observava a paisagem pela janela, se virou para encarar o homem que havia se apresentado como “advogado do Sr. Wyatt”.

O Sr. Wyatt, seu tio distante, mandará buscá-la imediatamente após o funeral de seus pais.

— O título de Conde de Somerset passará para o Sr. Wyatt, Vanessa. Você não terá qualquer direito à propriedade ou ao nome da família. O Sr. Wyatt assumirá todos os direitos e responsabilidades legais relacionados a você.

— Todos os direitos legais?

— Tudo. O que come, o que veste, cada centavo que gasta, tudo dependerá dele.

— ....

— Inclusive seu casamento, quando atingir a maioridade.

Uma sombra de palidez passou pelo jovem rosto de Vanessa, emoldurado pelo vestido preto de luto. O advogado a observou com curiosidade. Ele não esperava que uma garota de treze anos fosse capaz de compreender todas as implicações de suas palavras.