Tradução: Amme
Capítulo 05
O Duque Se Virou
Parado diante da Escola Gillis para Meninas, Kyle Ettman parecia tão natural quanto o muro ou os lampiões em frente ao colégio. Ele está de volta, pensavam as alunas ao pousarem nele um olhar distraído.
Kyle sorriu enquanto olhava pelo portão principal. Ao longe, viu uma jovem empurrando a bicicleta na sua direção.
Pelo porte ao mesmo tempo elegante e decidido, reconheceu-a de imediato.
Não só pelo porte. Também pela expressividade do rosto e pelos gestos delicados. Tudo nela deixava claro que era Layla. Não havia outra garota como ela. Ele sabia disso desde aquele dia de verão em que se aproximara pela primeira vez daquela menininha sentada à sombra de um salgueiro.
— Layla!
Ao ouvir alguém chamar seu nome, Layla parou. Semicerrou os olhos, depois voltou a caminhar, desta vez um pouco mais depressa do que antes. Kyle adorava esses momentos. Aqueles em que ela acelerava o passo ao vê-lo, se aproximando com um sorriso no rosto.
— Por que você veio até aqui? — perguntou ela. — Não seria mais fácil me encontrar direto na cabana?
— Ora, o colégio fica no meu caminho de volta mesmo — respondeu ele.
Claro que era mentira. Havia abandonado os amigos do clube de tênis para acompanhar Layla no caminho de volta. Embora soubesse que os veteranos do clube estariam esperando por ele no dia seguinte, raquetes em punho como armas, não se preocupava com isso no momento. Os problemas de amanhã podem esperar até amanhã.
Os dois caminharam lado a lado pela rua movimentada. Ao atravessarem o distrito comercial, compraram sorvetes em casquinha que foram saboreando pelo caminho. Pararam em uma livraria impregnada de um suave cheiro adocicado de livros velhos e empoeirados.
Layla ria muito. Além de Bill, Kyle era a única pessoa no mundo que sabia o quanto ela ria. Ele tinha plena consciência disso, e isso o deixava feliz.
A brisa ficou bem mais fresca quando dobraram na estrada que levava a Arvis. Quando a conversa derivou para o tema das provas, o rosto de Layla ficou sério. Essa seriedade ganhou um toque de desânimo quando começaram a falar de geometria.
Kyle notou essas sutis mudanças em sua expressão.
Ainda não. Conteve as palavras que insistiam em escapar dos lábios. Não queria criar um constrangimento entre eles ao declarar seu amor com precipitação. Ficou se perguntando se era sequer necessário que namorassem. Por que não pular diretamente para o casamento? Layla Ettman. Gosto de como soa.
— Por que você está sorrindo? — perguntou Layla. Estava reclamando das notas de geometria que não melhoravam quando percebeu, de repente, que Kyle sorria por algum motivo.
— Hã... Ah, é! Ouvi dizer que o Duque Herhardt está voltando?
Respondeu tentando mudar de assunto depressa.
— Já faz tanto tempo. Quando está prevista a chegada dele?
— Não sei.
— Todo mundo só fala nele. Duque Herhardt isso, Duque Herhardt aquilo. Mas você não parece nem um pouco interessada.
Layla apertou com mais força o guidão da bicicleta. Nunca tivera muito contato com o duque — além de vez em quando cruzar com ele na floresta ou de passar por ele quando Claudine a convidava para a mansão.
Vê-lo a deixava desconfortável, e por isso tentava evitá-lo sempre que possível. Quando o encontrava, inclinava a cabeça o máximo que conseguia para não precisar encará-lo.
Sentia-se assim desde aquela tarde de quando era criança, quando tropeçara e deixara cair a moeda de ouro aos pés dele, e ele a pisara para fazê-la parar de girar. Fora Claudine quem a convidara para a mansão e depois a abandonara, deixando-lhe a moeda como compensação. Mas fora o duque que a fizera sentir, de forma cabal, o quanto ela era insignificante naquele mundo estranho e luxuoso.
Aquela experiência deixara em seu coração uma cicatriz diferente das que o desprezo e a perseguição já lhe haviam causado antes. Queria esquecer o episódio, mas ele voltava à memória cada vez que via o Duque Herhardt. Ela o detestava. Detestava como ele sempre lhe relembrava aquele dia, aquela lembrança, aquela cicatriz.
Enquanto recuperava o fôlego, um automóvel preto passou por elas. Como a Duquesa-viúva Herhardt jamais andava de carro, provavelmente era a senhora Herhardt, a mãe do duque, voltando de algum compromisso social.
— Com o duque prestes a voltar, Arvis deve estar muito agitado ultimamente — comentou Kyle.
— É.
— Aliás, Layla, você acha que eu devia tentar me tornar oficial também? — Kyle caminhava agora de costas, de frente para Layla, enquanto continuavam pela estrada. — Eu poderia me tornar um oficial como o Duque Herhardt, e quem sabe seria condecorado. Capitão Ettman, um atirador de elite brilhante capaz de acertar uma bala direto no coração de um soldado inimigo!
Riu de um jeito maroto enquanto simulava atirar um rifle de precisão.
— Com licença, Sr. Ettman. Você não consegue nem matar uma galinha — respondeu ela, rindo.
A autoconfiança de Kyle levou um golpe, mas não havia como contestar o ponto. Ela se referia a algo que havia acontecido mais ou menos no mesmo período, no ano anterior. Kyle insistira em pagar as refeições que fizera na cabana ajudando nas tarefas domésticas, então Bill o mandara pegar uma galinha para o jantar.
Kyle marchou destemido até o galinheiro para capturar uma, mas, no fim, não conseguiu nem uma única pena.
A partir daquele dia, Bill passou a chamar Kyle pelo apelido depreciativo de "vagabundo".
— Você é meu amigo querido, Kyle Ettman. É por isso que gosto de você — disse Layla, rindo ao ver o semblante carrancudo dele. — Prefiro que você use as mãos para salvar pessoas, não para atirar nelas.
— Bem... claro. Vou me tornar médico — respondeu Kyle, acanhado, colocando a mão na própria bochecha. — Então, devo me tornar oficial médico? Condecoram oficiais médicos?
— Provavelmente condecorariam se você salvasse muita gente, não é? É uma conquista bem melhor do que matar muita gente.
— Você acha?
Conversando descontraidamente, chegaram a um cruzamento. A residência Ettman ficava no final da rua à esquerda.
— Ah! Esqueci de trazer as anotações de geometria que disse que ia te emprestar — exclamou Kyle.
— Então por que você não vai para casa agora e passa na cabana na hora do jantar? Mas não se esqueça das anotações.
— Ei, você vai estar mais ansiosa para me ver ou para ver as anotações?
— As anotações — respondeu ela, sem hesitar, antes de estourar em risadas maliciosas.
Kyle também riu e saiu correndo em direção à própria casa.
Layla gritou atrás dele:
— Não precisa correr! Ainda tenho que fazer o jantar!
Kyle respondeu em voz ainda mais alta:
— Não precisa se preocupar! Vou chegar quando eu quiser!
Layla sacudiu a cabeça, sabendo que seria inútil tentar mudar a opinião dele. Em seguida, montou na bicicleta e começou a pedalar em direção à Estrada Platanus, que levava à mansão de Arvis.
Matthias mandou o automóvel parar no final da entrada da mansão, longe do prédio. O motorista e o mordomo ficaram desconcertados.
A chegada do Duque Herhardt havia sido repentina. Depois que correu a notícia de que chegaria uma semana antes do previsto, os criados de Arvis haviam trabalhado do amanhecer ao anoitecer se preparando para recebê-lo. Por isso, apenas duas pessoas haviam sido enviadas para buscá-lo. E agora o duque os surpreendia assim.
Hessen, o mordomo, engoliu em seco, nervoso, e disse:
— Senhor, ainda há...
— Vou dar uma volta — interrompeu Matthias, com calma. O motorista hesitou por um instante, depois se apressou em sair do carro e abrir a porta traseira.
— Não — disse Matthias, sacudindo a cabeça em direção a Hessen, que começara a segui-lo para fora do carro. — Nos vemos na mansão.
Sorriu para Hessen e então se virou e foi embora.
Hessen hesitou por um momento, depois obedeceu a ordem do senhor e voltou para dentro do carro. O motorista também se apressou a voltar ao lugar. Depois que partiram, a estrada ficou quieta novamente. Segurando o boné de oficial com leveza em uma mão, Matthias passeou à sombra das árvores. O click das botas se misturava, de maneira agradável, ao som das folhas balançando ao vento.
Matthias von Herhardt fora a criança perfeita, o estudante perfeito, e tornara-se o oficial perfeito. Em breve casaria com a mulher perfeita e se tornaria o marido perfeito e o pai perfeito. Essa incessante sucessão de perfeições vinha se desenrolando de forma tão natural que todo o processo começava a entediá-lo.
Diminuiu um pouco o passo. Um feixe de luz que filtrava por uma abertura entre as folhas incidiu sobre seus olhos, realçando a leve vermelhidão em suas bordas. Ao caminhar um pouco mais, o feixe desceu e iluminou o bracelete dourado e as insígnias no peito do uniforme cinza-ardósia.
— Você precisa ficar noivo este verão.
Matthias aceitara prontamente o desejo da mãe. Era seu dever casar-se no momento adequado e gerar um herdeiro.
— Acredito que Claudine seja a candidata mais adequada para ser a próxima duquesa.
Aceitara igualmente, com boa graça, a opinião da avó.
Claudine von Brandt era uma pretendente bem qualificada, de excelente linhagem. Matthias jamais desejara nada. Nunca tivera a oportunidade de fazê-lo — antes mesmo que tivesse chance de desejar algo, ele já havia sido presenteado com isso. O próprio desejo era um conceito que lhe era alheio. O matrimônio também.
Almejava um casamento perfeito. Um casamento que servisse como degrau para estabilizar seu mundo, sem envolver emoções desnecessárias. Claudine von Brandt parecia o arranjo mais adequado para isso, e isso era suficiente. Não sentia necessidade de se interessar por ela em nenhum outro sentido.
Parou por um momento no meio da estrada. Ergueu os olhos, e os raios partidos do sol ofuscaram sua visão. Foi então que percebeu a presença de outra pessoa por perto. Olhou ao redor com os olhos semicerrados, e logo viu uma jovem se aproximando de bicicleta. Permaneceu parado, e logo ela passou por ele pelo lado esquerdo. Os cabelos dourados ondulavam ao vento.
Layla Llewellyn?
Assim que o nome lhe ocorreu, a jovem virou a cabeça na direção dele. Ao vê-lo, seus olhos verdes se arregalaram. Continuando a pedalar enquanto mantinha o olhar fixo nele, perdeu o equilíbrio, e a bicicleta tombou. O grito dela veio logo em seguida. A roda dianteira da bicicleta virada continuava girando.
Matthias se aproximou da jovem no chão. Sob a sombra que ele projetava, ela ergueu a cabeça. Não havia engano: era Layla Llewellyn, a menininha obcecada com pássaros.
— Desculpe, Vossa Graça — disse ela depressa, inclinando a cabeça. Parecia estar esperando que ele seguisse seu caminho. Matthias estava prestes a ir embora quando mudou de ideia e pousou um olhar casual em Layla. O uniforme escolar estava coberto de terra. As meias estavam rasgadas, e os joelhos, sangrando. O silêncio caiu enquanto a roda da bicicleta ia perdendo o movimento.
Layla ergueu os olhos para Matthias com o olhar semicerrado. Tinha a expressão determinada de sempre, mas havia algo de suave naquele olhar.
Parece que essa menina também cresceu, pensou. Embora fosse natural que tivesse crescido com o passar do tempo, vê-la lhe causava uma sensação estranha. Em sua mente, ela sempre permanecera uma criança. Uma menininha que o irritava ao tentar constantemente evitá-lo. Mas a Layla Llewellyn que via diante de si agora não correspondia em nada à menininha que guardava na memória.
As curvas suaves do corpo sob o tecido fino do uniforme escolar de verão não tinham nada da garotinha esquelética de antes. Tampouco os lábios e as bochechas corados, nem o aroma suave que a brisa carregava.
Essa constatação deu a Matthias uma estranha sensação de inquietação enquanto Layla se esforçava para se levantar. Deu um passo para trás para ajustar os sapatos, depois sacudiu a poeira do uniforme. Embora já totalmente crescida, ainda era bastante baixinha — mal chegava ao queixo dele quando se punha em pé.
— Layla Llewellyn — disse Matthias, impulsivamente.
Layla se encolheu e curvou os ombros.
Ainda com a cabeça baixa, disse:
— Desculpe, Vossa Graça.
E repetiu o pedido de desculpas mais algumas vezes enquanto se abaixava para recolher os pertences espalhados ao redor dos pés dele — a bolsa, os livros, o caderno.
O olhar de Matthias acompanhou as mãos dela, sujas de terra e sangue, até que os dedos roçaram uma caneta. Ele deu um passo à frente e pousou o pé sobre ela, com toda a tranquilidade. Só então Layla finalmente ergueu os olhos para ele. Parecia irritada.
— Layla Llewellyn — disse ele mais uma vez. — Estou falando com você.
Falava de maneira descontraída, com a mesma calma com que pisara na caneta.
Ela fechou os olhos com força e os abriu novamente.
— Sim, Vossa Graça?
Parecia estar esperando a chance de arrebatar a caneta de volta, mas Matthias não se moveu.
— Pode falar — disse ela. — Estou ouvindo.
A voz era cheia de confiança, embora o corpo tremesse. Os olhos verdes, que lembravam a floresta no verão, brilhavam de raiva e embaraço.
A lembrança dele sorrindo enquanto pisava na moeda de ouro, tantos anos atrás, veio à sua mente. Olhava para ela agora com a mesma expressão de então. Por fim, ele riu baixinho para si mesmo e passou por ela com passos largos e despreocupados. Colocou o boné na cabeça e voltou a passear pela estrada, como se nada tivesse acontecido.
Ela ficou olhando para suas costas enquanto se afastava. Por que ele agiu assim se não tinha nada a dizer?, pensou, apertando a caneta na mão. Os moradores de Arvis acreditariam que o Duque Herhardt, o homem que exaltam como o nobre perfeito, seria capaz de fazer uma coisa dessas? Apostaria todo o dinheiro que juntei para comprar óculos que não acreditariam. Me chamariam de louca.
Com os lábios bem fechados, endireitou a bicicleta rapidamente, depois limpou a caneta com cuidado e a guardou na bolsa. Começou a empurrar a bicicleta pela estrada, seguindo atrás do Duque Herhardt, que caminhava bem devagar. Os joelhos ralados latejavam.
Embora tivesse certeza de que ele não olharia para trás, mantinha a postura ereta enquanto andava. Doía muito andar sem mancar, mas ela suportava.
Quem me dera que ele aproveitasse as pernas compridas e andasse mais depressa.
Estava prestes a soltar um suspiro exasperado quando o duque se virou. Uma brisa suave soprava entre as folhas, fazendo os raios de sol fragmentados ondularem lentamente sobre a estrada de verão.
Surpreendida, Layla ficou paralisada, esquecendo-se até de desviar o olhar. O olhar de Matthias desceu vagarosamente pelos cabelos longos e soltos dela. Passou pelo peito, que subia e descia levemente, pelas mãos brancas que seguravam o guidão da bicicleta. Deteve-se nos tornozelos incrivelmente esguios e nos pés minúsculos.
Depois voltou a seus olhos. Contemplou por um bom tempo aqueles olhos verdes e límpidos com uma calma absoluta. Layla Llewellyn continuava sendo uma órfã que vivia de graça em sua propriedade, mas um fato essencial havia mudado tudo. Com o passar do tempo, a menininha havia crescido. Ao compreender isso, ele finalmente a viu como ela era agora.
Ela não era mais uma criança. Era uma jovem mulher.
