Chore, Melhor Ainda se Implorar [Novel]

Após perder os pais aos 12 anos, Layla Llewellyn é passada de um parente indiferente para outro, até ser enviada para outro país. Ao chegar ao Império de Berg, ela fica sob os cuidados de Bill Remmer, um parente distante e ranzinza que parece não se importar com nada além do seu trabalho como jardineiro da renomada família Herhardt. Depois de anos de negligência, tudo o que Layla deseja é um lugar para chamar de lar, mas seus encontros com o charmoso Duque Matthias von Herhardt e o restante da alta sociedade trazem provações e tribulações para a jovem de coração terno.

Capítulo 24 - Bala Azul

Capítulo 24 - Bala Azul

Tradução: Amme

Capítulo 24

Bala Azul


Os quatro dias que Layla passou sozinha foram muito estranhos.

Embora no início tivesse achado graça, acabou seguindo o conselho do tio — trancou todas as janelas e pegou a espingarda de caça para deixar do lado da cama. Apesar das precauções antes de dormir, não conseguia dormir direito.

Às vezes acordava assustada com o pio de corujas e outros pássaros noturnos. Quando dormia, frequentemente tinha pesadelos. Em meio a cenários horríveis de surras e abandono, o rosto do duque aparecia repetidamente em sua mente.

Isso fazia o sonho se transformar em uma reencenação daquele beijo horrível.

Por fim o sol nascia, dando início a dias que pareciam não ter fim. Mantinha-se ocupada, sem descansar durante as horas em que estava acordada. Cuidava dos animais, trabalhava na horta e varria e espanava a cabana já impecável. Lavou as cortinas e as roupas de cama, e até organizou o galpão. Por alguma razão estranha, não conseguia ler nem estudar como gostava de fazer normalmente. Quando tentava, não conseguia manter o foco nas palavras na página.

Os dias sozinha eram insuportavelmente longos. Quando não havia mais o que fazer, ficava andando de um lado para o outro até o cair da noite, que trazia consigo mais pesadelos. Na manhã do quarto dia, amarrou o avental com firmeza na cintura e começou a caminhar para o quintal — quando de repente um pensamento a fez parar.

Era estranho. Bill sempre passava a maior parte do dia fora da cabana, trabalhando, e durante esse tempo Layla ficava sozinha fazendo as tarefas e os deveres. O fato de morarem juntos não significava que faziam tudo juntos. Simplesmente se sentavam à mesma mesa, conversavam sobre o dia à luz da lamparina na cabana aconchegante, e...

— É a primeira vez — murmurou para si mesma, tomada de repente por aquela percepção.

Desde que saíra de Lovita para Berg, nunca havia passado um dia sem ver o tio Bill. Ele sempre estivera por perto. Graças a ele, nunca havia passado um dia sozinha. No começo e no fim de cada dia, o tio Bill sempre havia estado ali.

Mas agora estava sozinha.

Levara quatro dias para perceber isso, mas logo veio outra percepção. Compreendeu o quanto haviam sido solitários, tristes e assustadores os dias em que vagara pelo mundo como uma menina sozinha.

Depois de refletir sobre essas coisas por algum tempo, continuou andando até o quintal. Enquanto dava comida às galinhas e ordenhava as cabras, não conseguia evitar olhar repetidamente pelo quintal afora.

O desejo do retorno do tio Bill havia se transformado em uma prece ardente.

Sentia que, assim que ele voltasse, tudo ficaria bem de novo. A tristeza de ter de crescer, a memória traumática do primeiro beijo — todos esses pensamentos confusos e assustadores desapareceriam quando não estivesse mais sozinha.



— Kyle.

Sobressaltado com a voz que chamou seu nome de repente quando achava que estava sozinho no quarto, Kyle se virou.

O pai havia entrado no quarto e estava parado bem atrás de sua cadeira.

— Sim, pai? — respondeu Kyle, levantando-se depressa.

Sobre a escrivaninha havia um livro aberto na mesma página havia vários dias — desde a noite em que havia contado ao pai da intenção de se casar com Layla.

— O senhor chegou cedo — comentou Kyle, notando que ainda havia luz lá fora.

O Dr. Ettman sorriu afetuosamente para o filho.

— É fim de semana, Kyle.

— Hein? Já?

— Não vou perguntar onde está com a cabeça. Acho que já sei. — Deu uma risadinha e sentou na cadeira em que Kyle havia acabado de se levantar. Era um sinal de que tinha algo a dizer.

Ligeiramente nervoso, Kyle puxou outra cadeira e sentou de frente para o pai.

Naquela noite, o Dr. Ettman não havia dado nenhuma resposta. Ficara olhando fixamente para Kyle por um longo tempo antes de dizer que precisava de alguns dias para pensar. Pela expressão e pelo tom de voz, Kyle havia percebido que não adiantaria dizer mais nada.

Por isso havia esperado vários dias, consciente o tempo todo dos ponteiros do relógio que andavam de forma infuriantemente lenta. Durante vários dias resistira ao forte desejo de ir ver Layla, pois não queria magoá-la fazendo uma promessa que ainda não tinha certeza de poder cumprir.

— Entendo o que você sente — disse o pai —, e sei o quanto é apaixonado pela Layla. Mas Kyle, você ainda é jovem demais para falar em casamento, assim como ela.

— Mas o senhor e a mãe não se casaram no ano em que o senhor entrou na faculdade de medicina?

— Bom, isso foi há mais de vinte anos...

— E a Lady Claudine, que tem menos de um ano a mais do que a Layla, vai se novar semana que vem.

— Isso é...

— E a filha do Barão Arndt, com quem a mãe me apresentou na festa, tem a mesma idade da Layla. — O rosto de Kyle permanecia tranquilo enquanto alinhava os exemplos um a um.

O Dr. Ettman logo caiu na risada.

— Você parece mais sério com isso do que eu pensava.

— Sei que ainda sou jovem. E entendo as preocupações do senhor, pai.

— E mesmo assim está sendo tão persistente. Você realmente gosta tanto da Layla?

— Sim — respondeu Kyle sem hesitar. O amor que sentia por Layla era tão ardente que não precisou pensar na resposta, assim como não precisa pensar para respirar.

— Quanto à Layla ir para a faculdade, bem, posso certamente ajudar patrocinando os estudos dela. — O Dr. Ettman olhou para o filho com um olhar ao mesmo tempo sério e afetuoso. — A Layla é uma boa garota. Tem bom coração e é inteligente. Se quiser ir para a faculdade, estou disposto a ajudar.

— Claro, quero que a Layla possa continuar estudando as coisas que lhe interessam. Mas pai, o que mais quero é me casar com ela.

— Um casamento envolve mais do que duas pessoas.

— Claro. Não estou desconsiderando a importância das condições familiares, da honra e do prestígio.

— Então por que está sendo tão obstinado?

— Porque por mais importantes que sejam essas coisas, não há nada mais importante do que escolher a pessoa certa para passar a vida inteira.

— Kyle...

— Quero me tornar um bom médico, um bom marido e um bom pai. Assim como o senhor, pai. Para mim, tudo isso começa com a Layla.

O coração estava começando a bater furiosamente, mas manteve a compostura enquanto continuava dizendo coisas que havia guardado para si por tanto tempo.

— Quero ser uma boa pessoa para a Layla, um bom marido e um bom pai para os filhos dela. — Sentia o rosto esquentar, mas continuou. — Com a Layla, tornar-me uma boa pessoa em todas essas formas parece a coisa mais natural do mundo, mas sem ela... sem ela, pai, tudo soa ridículo e sem sentido. — Com uma voz clara e firme, acrescentou: — Sem ela, não teria autoconfiança para viver assim.

Entrelaçou as mãos no colo e olhou nos olhos do pai.

— Sei que o senhor e a mãe me amam. Muito do que vocês amam em mim é graças a ela. Acho que ela é responsável pelas minhas melhores partes.

Ouvindo o discurso solene do filho, o Dr. Ettman o encarou com um olhar igualmente solene.

— Não quero perdê-la — disse Kyle. Os olhos estavam cheios de determinação. — Por favor, me ajude a mantê-la na minha vida, pai.



A noite havia chegado, mas Bill ainda não havia voltado.

Sem mais tarefas com que se distrair, Layla estava sentada na cadeira da varanda, olhando para o nada. A cadeira vazia do tio ao lado parecia ainda maior do que de costume.

Será que aconteceu algum acidente? Levantou-se de um salto com o pensamento. Lembrava de ter lido sobre um acidente de trem no jornal uma vez. E os trens não eram o único risco — as carruagens e os automóveis também sofriam acidentes com frequência.

Depois de andar de um lado para o outro pelo quintal por algum tempo, reuniu coragem para caminhar em direção ao portão da mansão conforme o sol começava a se pôr. Nos últimos dias, havia evitado aquele caminho com medo de topar com o duque. A cada passo, pensava no tio Bill.

Desde pequena, tinha o hábito de imaginar o pior. Como encarar o infortúnio sem preparação ou defesa podia ser fatal, achava que conseguia enfrentá-lo melhor se pensasse em todas as possibilidades com antecedência e se preparasse para elas.

Tão logo qualquer um dos parentes começava a lançar olhares desaprovadores para ela, já começava a se preparar para as consequências inevitáveis. Se batessem nela, não choraria. Se gritassem, não deixaria que a magoasse. Quando finalmente a mandassem embora, aceitaria com calma e se despediria educadamente. No caminho para a próxima casa, tentaria sorrir ainda mais radiante.

Os esforços haviam dado resultado: a cada nova casa, era um pouco menos afetada pelos maus-tratos e sorria um pouco mais. Os infortúnios continuavam a segui-la onde quer que fosse, mas graças à preparação havia ficado muito melhor em suportá-los. Mas se algum infortúnio tivesse acontecido ao tio Bill, duvidava que conseguiria aceitar com tanta calma.

Murmurando tio Bill... repetidamente, logo passou pelo portão. Não era do feitio de Bill abandoná-la. Certamente voltaria. Mas se não voltasse...

Por favor, volte, pensou. Juntando as mãos como numa prece, disse em voz alta:

— Por favor. Não me deixe sozinha.

Antes da viagem, havia tranquilizado Bill e lhe dito que não tinha nada com que se preocupar. Mas agora, depois de quatro dias, era ela quem estava preocupada.



— Para onde você vai, mamãe? — a pequena Layla havia perguntado depois de receber um vidro bonito cheio de balas duras. Era a primeira vez na vida que via uma coisa assim.

Tão bonita quanto as balas, a mãe havia olhado para Layla por um longo tempo antes de responder:

— Para longe.

— Então vai chegar tarde em casa? — Layla havia perguntado com impaciência, ansiosa para provar uma das balas.

— Sim, meu bem.

— Muito tarde?

— Muito tarde.

— Mas volta antes de eu acabar todas essas, né?

Vendo Layla sacudir o vidro de balas coloridas, a mãe havia assentido e respondido:

— Sim, vou voltar.

Se ia me abandonar, não deveria ter respondido assim, pensou Layla enquanto continuava a caminhar pela estrada.

A mãe era conhecida por ser bela demais para ser esposa de um homem pobre. Fugiu, deixando para trás marido e filha como se fossem roupas que não assentavam mais.

Vários rumores correram sobre o que havia sido feito dela. Uns diziam que havia se tornado amante de um nobre de alta posição. Outros, que havia se casado com um comerciante rico e se mudado para o exterior.

Fosse lá o que tivesse acontecido de verdade, havia deixado cruelmente para trás uma filha pequena e negligenciada, e um marido devastado pelo abandono. O pai, que antes sempre havia sido bondoso e amoroso, começou a se embriagar todos os dias. Não queria mais olhar para Layla, dizendo que não suportava ver um rosto que lhe lembrava a esposa que o havia abandonado.

Layla comia as balas com parcimônia, aguardando o retorno da mãe.

Quando as balas foram diminuindo ao ponto do fundo do vidro ficar visível, compreendeu que a mãe jamais voltaria.

Mas não queria aceitar aquele fato doloroso. Por isso adiou comer a última bala.

Ainda guardava aquela última bala no dia em que ficou sozinha no mundo. O pai, que havia ficado cada vez mais doente e debilitado pelo álcool, finalmente faleceu. Naquele dia, talvez pressentindo que o fim estava próximo, ele se voltou para a filha que havia evitado por tanto tempo e sorriu.

— Quando as flores abrirem, a gente vai ao parque, Layla — disse com uma voz fraca.

Aquela proposta alegre acabou sendo suas últimas palavras, pois morreu naquela mesma noite.

Se vai partir, não faça promessas.

Sem saber o que fazer com aquela menina inconveniente, os parentes de Layla ficaram a princípio na expectativa de que outro se adiantasse a cuidar dela. Enquanto isso, ela ficou sozinha em uma casa vazia, com nada além de uma promessa não cumprida e uma única bala.

Até hoje ainda se lembrava vividamente daquela bala azul e reluzente.

Depois de alguns dias, quando não havia mais nada para comer, havia finalmente colocado a bala na boca. Mordeu com força, partindo-a em cacos que arranharam a parte interna macia da boca.

Logo o gosto salgado de sangue se misturou ao sabor doce da bala, mas ela continuou a mastigá-la, soluçando o tempo todo. Era uma tristeza agridoce. Olhando pela janela, viu que as flores haviam desabrochado. Carregadas pela brisa da primavera, as pétalas rosa-claro flutuavam no ar como flocos de neve.



Imersa nas memórias enquanto caminhava pela Estrada Platanus, Layla ergueu os olhos e os arregalou de imediato.

— Tio...! Tio!

O rosto pálido foi imediatamente iluminado por um sorriso radiante.

— Tio! Tio Bill! — Começou a correr em direção a Bill, que caminhava pelo outro lado da estrada.

Naquele instante, o carro preto do duque dobrou na Estrada Platanus.