Tradução: Amme
Capítulo 22
Em Plena Luz do Dia
A decisão de mudar de rumo foi impulsiva. Matthias havia planejado ficar na cabana até a hora do jantar para adiantar o trabalho.
Ao menos, era esse o plano até o momento em que saíra da mansão.
De repente, olhou ao redor e se viu na estrada que levava à cabana do jardineiro. Parou por um instante, mas não voltou atrás.
Nos últimos dias, tudo havia seguido sua ordem natural. Precisava continuar assim. A irritação que sentia seria resolvida pelas lágrimas dela.
Alongando a passada, desceu pela trilha sombreada da floresta. Afrouxou a gravata e desabotoou o botão de cima da camisa justa.
Os movimentos eram mais bruscos e impacientes do que de costume. As emoções estavam cada vez mais difíceis de controlar, e ele estava farto disso. Queria que tudo no seu mundo estivesse em seu lugar.
Suas próprias emoções não eram exceção. Era por isso que nunca se havia permitido se apaixonar por uma mulher.
Para ele, o desejo físico não passava de um instinto primário. Nunca havia se deixado levar por ele ao ponto de criar apego. Pelo contrário — achava melhor satisfazê-lo e seguir em frente, para evitar que se tornasse um peso desnecessário. Esses desejos nunca haviam ocupado muito espaço em sua mente.
Era isso o que tornava ainda mais incômodo o que sentia em relação a Layla. Era ela que via em todo lugar. Todos os sentidos convergiavam para ela. Sentia uma paixão incontrolável crescendo de dentro para fora. Às vezes não conseguia afastar os pensamentos que ela lhe despertava.
Perceber que estava dominado por esses sentimentos o perturbava profundamente. Eles não mereciam sequer figurar entre suas prioridades. Layla Llewellyn também não. Isso lhe parecia óbvio. Mesmo assim, queria ter certeza.
A sombra sobre a trilha foi rareando conforme se aproximava da cabana. Logo avistou a luz cegante do sol de verão além da borda da floresta. Sem hesitar, caminhou em direção à luz.
A caminho de volta depois de se despedir de Kyle, Layla ouviu um pio fraco. Seguindo o som, encontrou no quintal dos fundos um filhote de pássaro que havia caído de uma árvore. A craturinha débil mal começava a criar penas.
— Ai, você caiu?
Recolhendo o pássaro com cuidado e aninhando-o nas mãos, olhou para a árvore. De fato, havia um ninho visível em um dos galhos altos. Por sorte, apesar da grande altura de que havia caído, o filhote não parecia ferido.
— Tá bom, vou te levar para casa.
Fez carinho no pássaro para acalmá-lo, depois o colocou com delicadeza no bolso do avental e foi correndo ao galpão de Bill buscar uma escada.
Apoiou a escada firmemente contra a árvore e subiu com agilidade. O ninho ficava um pouco mais alto do que a escada alcançava, então depois de chegar ao topo precisou subir mais alguns galhos da própria árvore. Em circunstâncias normais seria fácil, mas para proteger o filhote no bolso do avental tinha de se mover com redobrado cuidado.
Quando estava perto o suficiente do ninho, com um braço enroscado com firmeza em um galho para se sustentar, usou o outro para alcançar o bolso do avental. Retirou o filhote e, estendendo o braço ao máximo, conseguiu por pouco recolocá-lo no ninho. Antes mesmo de poder soltar um suspiro de alívio, porém, o braço começou a escorregar do galho.
Ao perder o equilíbrio, o mundo começou a girar. Por sorte, conseguiu manter o aperto no galho — mas no movimento acidentalmente derrubou a escada com o pé. Como se não bastasse, o galho ao qual se agarrava começou a ranger sob seu peso. Sentia que era uma questão de tempo até que quebrasse.
— Tio! Tio Bill! — gritou por instinto. Só depois de chamar Bill desesperadamente mais algumas vezes se lembrou de que ele não estava em casa. — Kyle! — gritou então, com a voz embargada. Sabia que Kyle já estava longe, mas não sabia o que mais fazer. Se o tio Bill não podia ajudá-la, Kyle era sua única esperança.
Foi então que ouviu algo inesperado.
— Layla...
Uma voz suave chamava seu nome em tom cadenciado. A mente ficou em branco de medo, mas logo reconheceu de quem era. Baixou o olhar assustado e o viu imediatamente. O Duque Herhardt estava parado sob a árvore, olhando para cima em direção ao momento de aperto dela como quem aprecia uma paisagem.
Passou os olhos ao redor, observando a escada caída e o galho meio partido, antes de voltar devagar o olhar para a Layla suspensa em posição perigosa.
— Devo salvá-la? — perguntou. Inacreditavelmente, estava sorrindo.
De todas as pessoas, por que tinha de ser esse lunático?
— Não! — gritou ela, recusando a oferta de ajuda de cara, embora soubesse que podia cair a qualquer instante. Sabia que era arriscado, mas tentou se balançar na direção do tronco na esperança de conseguir se agarrar a ele com braços e pernas. Tudo que conseguiu, porém, foi fazer o galho rachar ainda mais. Aterrorizada, gritou:
— Kyle! Kyle!
Olhando para a estrada por onde Kyle havia partido, Matthias deu uma risadinha.
— Ele não vai vir — disse, cruzando os braços com toda a calma.
Sei que é cruel e indiferente, mas como pode olhar para alguém em perigo sem demonstrar a menor preocupação? Logo percebeu que não devia esperar compaixão humana normal do duque descontrolado. — Vai embora! — gritou ressentida. — Se não vai me ajudar, vai embora! Por que está parado aí?!
— Parece que está prestes a cair, então vou chamar alguém para salvá-la — disse ele.
— O quê?
— Não sou tão cruel assim. — Olhou para ela com um sorriso preguiçoso. — Vou chamar o jovem senhor Ettman, já que estava gritando por ele tão desesperadamente.
Sério? Layla já estava sem fôlego e mal conseguia responder.
— Embora, dado o porte dele, talvez fosse melhor chamar o Dr. Ettman.
Que absurdo. Sentia vontade de gritar impropérios para o duque, mas sua posição social não permitia isso. Bem quando pensava que preferia cair a implorar ajuda a ele, o medo falou mais alto e ela gritou:
— M-me salve!
— Tem certeza? — perguntou ele, descruzando os braços e retirando o paletó com calma. — Então me chame.
— Como?
— Me chame. — Deu alguns passos em direção à árvore, depois parou e olhou para cima. Parecia não estar disposto a mover um dedo para salvá-la a menos que ela atendesse à exigência.
Layla sabia muito bem do que ele era capaz. — Por favor, Vossa Graça! — gritou. O apelo angustiado vinha tingido de indignação. — Vossa Graça! — Conforme o momento da queda se aproximava, os gritos foram ficando mais desesperados. Continuou a chamá-lo até que, por fim, o galho se partiu.
A mente ficou em branco enquanto caía. E então ele avançou.
Em contraste com a descontração com que havia assistido a tudo, no instante em que ela começou a cair, correu rapidamente para o lugar certo e a agarrou. A força do impacto o derrubou no chão, mas mesmo assim a segurou com firmeza.
A nuvem de poeira que se ergueu da queda foi baixando aos poucos, da mesma forma que a mente atordoada de Layla foi voltando à consciência.
A primeira coisa que percebeu foi que, considerando a altura de que havia caído, sentia-se notavelmente bem. Levou mais um momento para compreender que era porque estava no abraço tranquilo de Matthias. Sim, o Duque Herhardt estava deitado sob ela, e o corpo havia amortecido a queda, poupando-a de se machucar.
O peito dela estava pressionado contra o dele, e podia sentir o coração batendo. Os braços dele continuavam enroscados com firmeza nas costas dela e na nuca. Ao erguer a cabeça furtivamente, captou um leve cheiro de menta emanando da pele lisa do pescoço dele. Sentiu as bochechas esquentarem. Logo o corpo inteiro estava quente.
Começou a se debater para se soltar, mas quanto mais se debatia, mais ele a apertava. Sentia que era grande e forte demais para ser afastado. Aquilo a enchia de embaraço e de outras sensações desconhecidas, o que a fez se debater ainda mais.
— Fica quieta — ordenou ele em voz baixa e ofegante.
Mas a resistência só aumentou. Não, pensou, estremecendo. Que absurdo. Não quero ficar quieta. Tentou gritar, mas nenhum som saiu.
Enquanto isso, o corpo de Matthias também foi esquentando. Apertou ainda mais as costas e a nuca dela. Todas aquelas sensações eram estranhas e desconhecidas para ela, e ela não aguentava.
Tomada de um medo visceral, fez força com tudo que tinha para se soltar. Mas quanto mais tentava, mais indefesa se sentia. Por mais que fizesse, não conseguia afastá-lo. Bem quando o medo chegava ao auge, viu a orelha dele bem na sua frente. Sem pensar, a mordeu.
— Ah! — Gemendo de dor, ele a empurrou para o lado. Depois olhou para ela e ficou desconcertado ao ver que ela estava tremendo, mesmo sendo ela quem acabara de atacá-lo. Com a mesma expressão atrevida nos olhos, logo começou a rir. — Eu disse que você precisava agir como uma dama, Layla. — De repente, a mão que estava esfregando a própria orelha se estendeu e a agarrou pelos cabelos.
Antes que pudesse compreender o que estava acontecendo, estava deitada de costas no chão. Só via o rosto dele olhando para ela de cima.
— É assim que me agradece por tê-la salvado? Não acha que morder é um pouco pouco digno de uma dama?
— Se o senhor não age como cavalheiro, por que eu agiria como dama, Vossa Graça? — Ela virou o rosto corado para o lado enquanto tentava empurrá-lo de novo.
Mas ele logo agarrou o queixo dela e a forçou a encará-lo. A mão estava muito quente. — Não foi você quem me chamou de o maior cavalheiro de todo Karlsbar? — perguntou.
— Não! Me enganei!
— Sério?
— Se o senhor é um c-cavalheiro... como pode f-fazer coisas tão... horríveis...? — gaguejou ela, tentando se afastar. Sentia que estava prestes a chorar.
Os olhos de Matthias escureceram ao perceber que ela esfregava furiosamente os próprios lábios, como se tentasse limpar algo sujo neles.
— Por favor, se afaste — disse ela, encarando-o. — Não entendo por que o senhor... ai! — Antes que pudesse terminar a frase, soltou um grito.
Matthias havia se inclinado e mordido a orelha dela. Aconteceu num piscar de olhos.
Ele aprisionou as mãozinhas que tentavam bater e arranhar e as pressionou contra o chão, agora com a orelha dela entre os lábios. Quando começou a lamber o lóbulo, ela começou a arquejar e a gritar.
Tendo originalmente apenas pretendido retribuir a mordida, mudou de ideia e a pressionou para baixo com mais força. Entre soluços e tentativas desesperadas de recuperar o fôlego, ela se contorcia enquanto ele mordia o lóbulo ainda mais fundo.
Usou o peso do corpo inteiro para imobilizar os membros que se debatiam, deixando várias marcas de mordida nas orelhas avermelhadas dela.
Sorriu com satisfação ao contemplar a aparência descomposta dela. Os olhos vazios estavam inchados de lágrimas. Os lábios pelos quais ela arquejava tinham um tom mais escuro do que de costume.
Apertando os dedos dela com tanta força que quase os quebrou, pressionou os lábios contra os dela. Atônita com o que estava acontecendo, ela cerrou os lábios com força, mas ele desfez a resistência sem dificuldade.
Aquele verão abafado logo acabaria. Sabia disso muito bem, mas isso não o impediu.
