Chore, Melhor Ainda se Implorar [Novel]

Após perder os pais aos 12 anos, Layla Llewellyn é passada de um parente indiferente para outro, até ser enviada para outro país. Ao chegar ao Império de Berg, ela fica sob os cuidados de Bill Remmer, um parente distante e ranzinza que parece não se importar com nada além do seu trabalho como jardineiro da renomada família Herhardt. Depois de anos de negligência, tudo o que Layla deseja é um lugar para chamar de lar, mas seus encontros com o charmoso Duque Matthias von Herhardt e o restante da alta sociedade trazem provações e tribulações para a jovem de coração terno.

Capítulo 21 - Hora de Crescer

Capítulo 21 - Hora de Crescer

Tradução: Amme

Capítulo 21

Hora de Crescer


Bill soltou um suspiro preocupado.

— Não sei se devia te deixar aqui sozinha.

— Para de enrolar, tio, ou vai perder o trem! — Layla repreendeu-o com carinho.

A confiança dela o tranquilizou um pouco, mas o sentimento de nostalgia não foi embora.

Na tarde anterior, havia chegado à cabana um aviso de falecimento. O irmão mais velho de Bill havia morrido. Os dois nunca foram muito próximos e fazia muito tempo que não se viam, mas Bill não conseguia ignorar o peso de perder o único familiar direto que lhe restava.

Decidiu tirar alguns dias de folga e visitar a cidade natal. Não estava particularmente preocupado com a folga ou com a viagem em si, mas custava a se conformar com a ideia de deixar Layla — a quem ainda via como uma menina — sozinha.

— Mantém a porta trancada — disse ele —, e as janelas fechadas e travadas, mesmo se estiver calor. — Havia repetido as mesmas coisas incontáveis vezes desde a noite anterior. — Minha espingarda de caça está pendurada no meu quarto, então —

— Vou manter a porta e as janelas trancadas, vou pegar a espingarda e deixar do lado da cama. Se aparecer algum malandro, eu atiro — disse Layla com calma, recitando de cor as palavras que havia ouvido tantas vezes. — Vou comer bem, dormir bem e me divertir.

Bill estaria fora no máximo três dias, mas se preocupava com Layla como se estivesse partindo para uma viagem de meses. Por fim, saiu a contragosto da cabana, com todo o seu peso no coração, e Layla o acompanhou até o portão da mansão para se despedir.

Lançando um olhar para trás em direção à mansão imponente, Bill perguntou com cautela:

— Layla, aconteceu alguma coisa naquela noite da festa?

— Não, nada. Me diverti. De verdade.

— Fico aliviado... mas parece que você e o Kyle andam se vendo menos desde então.

Ela riu como se achasse a pergunta um pouco ingênua.

— Eu e o Kyle? Que nada. É que os dois andamos muito ocupados ultimamente.

— Posso confiar nisso?

— Sim. Por que eu mentiria sobre uma coisa dessas?

— Bom, às vezes as coisas ficam esquisitas entre as pessoas. De qualquer forma, Layla, se ficar com medo de estar sozinha, por que não pede ao Kyle para... não, deixa pra lá. Esquece o que eu disse — disse Bill, sacudindo a cabeça com uma expressão séria. — Esse cara é o mais perigoso de todos.

— Tio, pelo amor de Deus...!

— Se ele vier te visitar, garante que ele saia antes de escurecer. Entendido?

— Para de falar essas besteiras e vai logo, tio — disse ela, dando-lhe uns tapinhas carinhosos nas costas quando chegaram ao portão da mansão.

Bill olhou para trás e repetiu os conselhos várias vezes antes de finalmente cruzar a Estrada Platanus e seguir em frente. Layla ficou olhando até ele sumir de vista, sorrindo e acenando cada vez que ele se virava.

Vão ser três dias longos, pensou.



— A Layla está me evitando — disse Kyle. Agora tinha certeza. — Aposto que é por causa da festa. — Não havia sido difícil chegar a essa conclusão. — Você não acha, Febe?

Em resposta à pergunta solene de Kyle, Febe continuou tranquilamente pousada no parapeito da janela, bicando os grãos de aveia que ele havia deixado. Kyle soltou um suspiro ao perceber que estava tentando ter uma conversa séria com um pombo.

Febe havia trazido mais uma notícia decepcionante de Layla naquele dia. O tio Bill viajaria por alguns dias à cidade natal, e durante esse tempo Layla passaria os dias na biblioteca, deixando a cabana vazia.

Layla havia mandado recados parecidos nos últimos dias, dizendo que estaria na casa de uma amiga, ou num compromisso no centro, ou ocupada trabalhando no pomar. No começo, ele achara uma consideração da parte dela avisá-lo para não fazer a viagem até a cabana à toa quando ela não estivesse. Mas agora começava a parecer que ela estava simplesmente inventando desculpas esfarrapadas para evitá-lo.

— Não a culpo. Eu provavelmente faria o mesmo se estivesse no lugar dela — disse ele, puxando os próprios cabelos e soltando um suspiro.

Havia lhe dito orgulhosamente que era o acompanhante dela e que ficaria ao lado dela durante toda a festa, e então a havia abandonado. Quando o criado lhe transmitira o recado de que ela estaria indo embora mais cedo, saiu correndo para procurá-la, mas ela já tinha voltado para casa.

Por que não saí do salão um pouco antes? Disse a ela para me esperar. Prometi que voltaria logo. Mas não cumpri a promessa.

Enquanto Kyle andava de um lado para o outro no quarto com angústia, Febe terminou a refeição e voou embora. Kyle ficou um momento olhando pela janela na direção em que ela havia voado, depois saiu do quarto por impulso.

Antes que percebesse, estava na bicicleta, pedalando em disparada. Mal sentindo o esforço que fazia, pensava apenas em Layla o caminho inteiro. Bem quando os pensamentos começavam a parecer grandes demais para o coração, chegou à cabana de Bill. Enquanto lutava para recuperar o fôlego, o sol escaldante batia nos ombros que subiam e desciam ofegantes.

No quintal, havia lençóis brancos e uma fronha estendidos no varal, ainda pingando. Através dos lençóis, podia ver a silhueta esguia de uma jovem.

Sentindo ao mesmo tempo alivio e apreensão, afastou devagar o cabelo suado da testa. Só então percebendo que havia alguém lá, Layla espiou entre os lençóis. Os olhos verdes se arregalaram ao reconhecê-lo. Os lábios se moveram algumas vezes antes de finalmente dizer:

— Kyle...

O som da voz dela foi doce o suficiente para fazer Kyle esquecer o constrangimento da situação.



Depois de ficarem em silêncio por um longo tempo à mesa, Kyle finalmente disse com remorso:

— Me desculpa.

Layla, que estava com os olhos baixos para as próprias mãos, levantou a cabeça surpresa.

— Me desculpa mesmo — repetiu. — Falhei com você.

— Não, não fale assim — respondeu ela, sacudindo a cabeça. — Me desculpa você. Sinto muito por ter mentido.

— Você só mentiu por minha causa. A culpa é toda minha.

— Não é, Kyle. Não estou brava nem magoada com você de jeito nenhum. Pode acreditar.

— Tem outro motivo, então? Algo que eu não sei que está fazendo você me evitar?

— Sabe, Kyle, você é meu grande amigo. É quase que família. Gosto de você assim. Por isso... acho que precisamos de um pouco mais de espaço. — Tentou sorrir com descontração ao dizer isso, mas quando viu a expressão no rosto dele, percebeu que ele não estava nada feliz.

Estava dizendo a verdade — realmente não estava brava nem magoada com ele. Mas na noite da festa, havia tomado consciência do abismo que existia entre os dois.

Antes, ignorava esse abismo por serem amigos. Mas a realidade era que Kyle vinha de uma família proeminente com a qual ela jamais conseguiria se encaixar. Por mais próxima que se sentisse dele, sabia que precisava encarar o fato de que ele era filho de um médico renomado e conviveria com facilidade entre nobres de alta posição.

O Kyle que havia visto no suntuoso salão de banquete naquela noite era claramente uma pessoa que pertencia àquele mundo. Já não era mais o garoto que brincava com ela.

Por que as crianças precisam crescer e virar adultas? Havia ruminado essa pergunta triste e simples enquanto voltava para casa descalça pela trilha da floresta naquela noite, os saltos altos na mão.

No fim, havia chegado à decisão de aceitar a passagem do tempo — e, enquanto o tempo passava, aceitar qualquer caminho que o amigo precisasse tomar.

Depois de outra longa pausa, Kyle disse:

— Você não percebe que está falando um monte de bobagem? — A voz estava mais baixa e tranquila do que de costume.

— Não. Falo sério — respondeu ela.

— Se a gente gosta um do outro, por que precisa de mais espaço?

— É a única maneira de nossa amizade durar. Não quero te perder, Kyle.

— Você acha que eu quero te perder? — Os olhos tremiam enquanto a olhava. — A gente é a gente. Nossa amizade não tem fim, Layla.

— Kyle...

— Nunca vou te perder. Não vou deixar que haja distância entre a gente. Como você pode sequer sugerir isso? — Bateu o copo d'água na mesa e fechou os punhos.

Você não pode fazer isso, Layla quis dizer, mas as palavras não saíram. Em vez disso, apenas sorriu, pensando: É hora de crescer. Engolindo essas palavras duras, levantou-se com confiança e disse:

— Vamos comer, Kyle. — Colocou o avental rapidamente e acrescentou: — Para compensar por ter mentido, vou fazer o almoço mais gostoso que você já comeu na vida.



— Matthias, não dá para você pedir baixa logo e começar a cuidar dos negócios da família de vez? — Riette pousou o jornal que estava lendo e se espreguiçou no sofá. Deu um bocejo, depois se virou para Matthias, sentado na poltrona.

— Um ano ou dois na divisão da guarda imperial não vai ser tão ruim assim — respondeu Matthias, folheando as páginas de um livro. Mesmo naquela tarde abafada de verão, mesmo relaxando em seu próprio quarto, estava de terno e gravata.

— É, afinal é tradição da família Herhardt — murmurou Riette, espreguiçando os braços preguiçosamente. — Matthias von Herhardt vai ser o Duque Herhardt mais perfeito de todos os tempos — acrescentou com uma risadinha.

Nesse instante, o canário, que brincava tranquilamente na gaiola, abriu as asas de repente e cruzou o quarto, vindo pousar em cima do livro que Matthias estava lendo.

Um sorriso se abriu no rosto de Matthias ao ver o pássaro cantarolando para ele como se estivesse puxando conversa. Era uma cena espantosa para Riette, que havia visto Matthias abater incontáveis pássaros ao longo dos anos sem pestanejar sequer.

— Espero que esse pássaro seja fêmea, Matthias — disse Riette, sacudindo a cabeça e rindo. — Caso contrário, isso é perturbador.

Sem responder, Matthias estendeu a mão na direção do pássaro. O bichinho esfregou o bico na ponta do dedo dele.

— Você não acha, Claudine? — perguntou Riette, virando-se de Matthias para Claudine, sentada no sofá em frente, trabalhando em um bordado.

Segurando o bastidor com firmeza, ela olhou para Matthias e o pássaro. Trocou um olhar com Riette, e o rosto inexpressivo cedeu lugar a um leve sorriso.

— Não sei, ouvi dizer que os pássaros com os cantos mais bonitos são os machos...

— Ai, Claudine, vamos fazer de conta que é fêmea. — Riette fingiu um arrepio. — Fico perturbado de pensar que estou vendo dois machos interagindo assim.

— Não seja tão intolerante, Riette. De qualquer forma, é só um pássaro. — Rindo, Claudine voltou a erguer a agulha de bordar.

Matthias esperou o pássaro sair de cima do livro para virar a página. Parecia completamente alheio ao bicho enquanto ele saltitava brincalhão da mão para o ombro, do ombro para os cabelos.

— Usa um vestido amarelo na festa de noivado, Claudine — disse Riette. — Talvez o Duque Herhardt goste de você tanto quanto do pássaro.

— Nunca — respondeu Claudine imediatamente. — Odeio amarelo. — Respirou fundo e voltou ao bordado. — É uma cor brega — acrescentou com uma risinha.

Um sorriso peculiar também apareceu no rosto de Riette, que fingia inocência. Depois disso, deixou o assunto do pássaro de lado e voltou a falar da carreira militar de Matthias e da cerimônia de noivado que se aproximava.

— Nossa pequena Lady Claudine vai superar até mesmo a princesa imperial.

— Você está me elogiando demais, Riette — respondeu Claudine, sorrindo radiante com uma leve careta.

Era um segredo de polichinelo que o imperador de Berg desejava o Duque Herhardt como genro. O imperador tinha um amor especial pela filha mais nova — além disso, a princesa era tão bela que era chamada de "a flor da sociedade".

Por isso, Claudine, cuja posição como futura Duquesa de Arvis estava pressuposta desde a infância, sempre se sentira levemente ameaçada pela princesa imperial. No fim, porém, havia sido ela a vencer. Claro que não havia vencido por amor.

A frase breve "não há necessidade" resumia o motivo pelo qual os Herhardt não haviam considerado necessário buscar um casamento entre Matthias e a princesa imperial. A família Herhardt tinha uma história mais longa do que a da família imperial, sem falar na riqueza e na honra acumuladas. Em seu julgamento, os benefícios de ter a princesa imperial como próxima duquesa não compensavam os inconvenientes. Essa atitude aparentemente arrogante era compreensível dado o considerável prestígio da Casa Herhardt.

Sendo assim, Claudine Brandt era considerada uma dama mais desejável do que a filha do imperador. Ficava claro por que a família Herhardt a havia escolhido. Era filha única de um conde de linhagem ilustre sem herdeiro. Do ponto de vista dos Herhardt, oferecia uma linhagem igualmente impressionante e um dote igualmente generoso ao da princesa imperial, sem exigir a reverência onerosa que o casamento com um membro da família imperial implicaria.

Independentemente desses detalhes, porém, o que importava a Claudine era que no dia da cerimônia de noivado, seu nome estaria acima do da princesa imperial.

Esse pensamento a enchia de tanta alegria que sentia que poderia amar tudo no mundo — inclusive aquele passarinho bobo.

— Mal acredito que a cerimônia de noivado está chegando tão rápido. É uma sensação estranha — disse Riette, sentando-se e esticando os braços.

Claudine o contemplou por um instante antes de voltar casualmente ao bordado.