Chore, Melhor Ainda se Implorar [Novel]

Após perder os pais aos 12 anos, Layla Llewellyn é passada de um parente indiferente para outro, até ser enviada para outro país. Ao chegar ao Império de Berg, ela fica sob os cuidados de Bill Remmer, um parente distante e ranzinza que parece não se importar com nada além do seu trabalho como jardineiro da renomada família Herhardt. Depois de anos de negligência, tudo o que Layla deseja é um lugar para chamar de lar, mas seus encontros com o charmoso Duque Matthias von Herhardt e o restante da alta sociedade trazem provações e tribulações para a jovem de coração terno.

Capítulo 19 - Me Beije

Capítulo 19 - Me Beije

Tradução: Amme

Capítulo 19

Me Beije


Kyle levou Layla para a varanda voltada para o jardim de rosas. Só então ela percebeu o quanto estava barulhento o salão lá dentro. Recostando-se no corrimão de mármore, soltou um suspiro de alívio e disse:

— Obrigada, Kyle. Muito obrigada.

Em vez de sorrir como ela esperava, Kyle estava com uma expressão azeda.

— Kyle?

— Por que você deixa ela fazer isso?

— O quê?

— Ela te arrasta por aí e te exibe para as amigas como se você fosse um bicho de estimação. Por que você deixa? Não é nada parecido com a Layla Llewellyn inteligente e digna que eu conheço.

Ao contrário da raiva incomum de Kyle, Layla sorriu com descontração.

— Que importa, Kyle? Além disso, nada do que ela disse sobre mim era mentira. Sou uma órfã, devo muito ao tio Bill, e vou ser professora.

— Achei que te conhecia, Layla...

— Sou uma pessoa de muitas facetas, Sr. Ettman.

Essa resposta brincalhona finalmente arrancou uma risada de Kyle.

— Você sempre fala as coisas mais absurdas, Layla.

— Pode ir, Kyle. Estou muito bem. De verdade.

— Para onde iria?

— Deve ter muita gente importante para conhecer. Sem falar nos seus amigos que estão aqui.

— Nem pensar — respondeu ele, com um gesto irritado da mão. Recostou-se no corrimão ao lado dela.

— Não seja assim, Kyle...

— Layla, estou aqui como seu acompanhante. — Virou a cabeça devagar na direção dela. O olhar caloroso dos olhos castanhos era visível mesmo na escuridão. — Por isso vou ficar com você. — Um sorriso se abriu devagar no rosto. — É o que quero.

Uma brisa suave trouxe do jardim o perfume adocicado das rosas.

Ela quase disse algo, mas fechou a boca e passou os dedos pelo corrimão.

— Por que não responde? — perguntou ele com suavidade.

Ela baixou o olhar para as biqueiras finas dos sapatos e respondeu com embaraço:

— Não sei.

— Está com vergonha de mim? Nunca te vi assim.

— Não estou com vergonha, Kyle.

— Acho que está corada...

— Não estou! — colocou as mãos nas bochechas.

— Ha, engoli sapo — disse ele.

Ela riu junto. Naquele instante, a senhora Ettman, que vinha percorrendo o salão à procura do filho, encontrou Kyle e Layla na varanda. Aproximando-se, soltou um suspiro e perguntou:

— Kyle, o que você está fazendo aqui fora?

Layla rapidamente endireitou a postura e curvou a cabeça para cumprimentar a senhora Ettman, que lhe deu um breve aceno antes de se voltar para o filho.

— Tem muita gente esperando por você lá dentro.

— Eles querem ver papai, não eu — respondeu Kyle, rindo baixinho.

A expressão da senhora Ettman ficou ainda mais séria.

— Kyle Ettman, você acha que estou brincando?

— Não quis dizer isso, mãe.

— Vamos. A Duquesa-viúva Herhardt está te procurando. Não vai deixá-la esperar, vai? — Estava claro que a senhora Ettman não cederia mais.

— Até já, Kyle — disse Layla, acanhada.

A Duquesa-viúva Herhardt adorava o filho único do médico da família, e Layla sabia muito bem o quanto a senhora Ettman se orgulhava desse fato.

— Espero aqui — acrescentou, sorrindo radiante para tranquilizá-lo.

A senhora Ettman finalmente sorriu para ela e disse:

— Obrigada, Layla.

Seus olhos eram do mesmo castanho dos de Kyle, mas sempre olhavam para Layla com uma expressão fria. Layla sabia disso muito bem. Kyle saiu a contragosto, olhando para trás várias vezes. Layla acenou para ele, com o gesto discreto perto do corpo.

— Me espera! — gritou ele, franzindo a testa. — Tem que me esperar, Layla!

Ela queria dizer que esperaria, mas as palavras não saíam. Tudo que conseguiu foi sorrir e acenar com um pouco mais de entusiasmo do que antes.

Quando Kyle e a mãe entraram, a varanda voltou ao silêncio. Layla olhou pelas janelas para o salão e sentiu a atmosfera despreocupada da festa — a luz bela do lustre se misturava aos sons abafados da música e das risadas. Sua visão estava turva porque havia deixado os óculos em casa, mas isso só tornava a cena ainda mais onírica e pitoresca.

Seu trabalho na festa havia acabado. Soltou um suspiro alegre de alívio. Só agora que podia relaxar percebeu a estranheza de sua própria aparência. Moveu a perna, e a saia do vestido e a fita que o adornava na cintura ondularam. Aquilo a divertiu, e começou a alternar entre pontas dos pés e calcanhar só para ver o movimento ondulante do vestido.

O vestido branco bordado a fio de ouro estava deslumbrante naquela noite onírica. O tecido suave e macio lhe fazia cócegas ao roçar a pele. Foi então que tomou consciência do colar.

O sorriso tímido sumiu quando o tocou com a mão.

Por que Lady Claudine disse aquilo?

Imaginou que o comentário de Claudine sobre o colar havia sido uma maneira sofisticada de colocá-la em seu lugar, mas não se importou. O presente do tio Bill era deslumbrantemente bonito. Independentemente do que qualquer pessoa dissesse, era assim que Layla se sentia — e isso bastava.

Sorrindo de novo, ergueu os olhos e viu um homem alto saindo para a varanda. Pensando que Kyle já havia voltado, ficou animada — mas então percebeu que não era ele, e o coração afundou.

Era o Duque Herhardt. E Lady Claudine estava com ele.



— A brisa da noite está refrescante, não está?

Claudine perguntou, respirando fundo. Fingia inocência, como se houvesse levado Matthias para a varanda apenas para apreciar a brisa.

— Adoro o verão pelas noites tão bonitas. E você, Duque Herhardt? — Apoiou levemente as mãos no corrimão de mármore e sorriu. Os olhos não estavam voltados para Matthias, mas para o verdadeiro motivo de ter saído — Layla, parada na outra extremidade do corrimão.

— Não sou muito fã do verão, milady — respondeu Matthias, postando-se ao lado de Claudine. Percorreu com os olhos o jardim cheio de rosas em plena floração, e o olhar passou rapidamente pelo rosto de Layla. Pareceu levemente desconcertado ao notar a terceira pessoa inesperada.

— Sério? Sempre achei que gostava — respondeu Claudine. Agora estava de frente para Matthias, de costas para Layla. — Pensando bem, você é um homem bastante reservado, Duque. Espero que não leve isso como um insulto. — Com as mãos cruzadas atrás das costas, deu um passo em direção a ele. Agora estavam próximos o suficiente para sentir o hálito um do outro. — Para ser honesta, gosto da sua reserva — continuou. — Seu temperamento equilibrado é muito aristocrático e cavalheiresco.

— Fico feliz que goste — respondeu ele, sem recuar.

Olhando diretamente nos olhos dele, ela disse com ousadia:

— Me beije.

Ele a fitou em silêncio.

— Embora goste da sua reserva — continuou ela —, não acha que nosso relacionamento poderia ter um pouco mais de paixão? — Inclinou a cabeça, e os cachos castanhos e espessos balançaram levemente.

— Afinal, vamos nos novar, e depois casar...

— Um pouco mais de paixão...? — Matthias semicerrou os olhos por um instante antes de assentir. — Sim, faz sentido. — Sem nenhuma hesitação aparente, estendeu as mãos e segurou o rosto dela.

Claudine pareceu surpresa a princípio, mas logo fechou os olhos com naturalidade.

Observando as sombras que os cílios longos projetavam em seu rosto, o olhar de Matthias derivou para a outra extremidade da varanda. Naquele instante, Layla, que havia ficado parada no mesmo lugar, angustiada, olhou de volta para ele.

Com os olhos fixos em Layla, pressionou os lábios devagar contra os de Claudine.

Exatamente como Claudine queria, Layla cumpria fielmente o papel de testemunha, encarando-os atônita, o corpo paralisado. Nem a distância considerável nem a escuridão eram suficientes para ocultar o rubor das bochechas.

Durante todo o beijo contido, o olhar de Matthias permaneceu em Layla. Os olhos dela, que o encaravam de volta sem poder desviar, eram tão claros e vivos quanto a luz da lua.

Quando ela finalmente conseguiu desviar o olhar, o beijo leve chegou ao fim. Enquanto Claudine abria os olhos devagar com um sorriso sutil, Layla desceu correndo as escadas que levavam ao jardim.

Matthias estendeu a mão a Claudine com cortesia.

— Vamos.

Claudine pousou a mão na dele com descontração.

— Tenho certeza, Duque Herhardt — disse enquanto voltavam para o salão. — Tenho certeza de que vamos ser um casal feliz.



Layla desceu as escadas em disparada. Sabia que não viriam atrás dela, mas mesmo assim não conseguia diminuir o passo.

O clique dos saltos no calçamento perturbava a tranquilidade noturna do jardim. Só parou ao chegar à grande fonte no centro. Enquanto recuperava o fôlego, a dor nos pés voltou — que havia esquecido durante a fuga.

— Ah... — Fez uma careta de dor ao tirar o scarpin de um dos pés. O pé estava coberto de arranhões e bolhas. O calcanhar havia começado a sangrar num ponto onde a pele se esfregara até romper. Sentia vontade de correr de volta à cabana, mas desistiu da ideia e se virou em direção à mansão.

Havia prometido a Kyle que o esperaria. Se fosse embora, ao menos devia avisá-lo antes. Mas não tinha nenhuma vontade de voltar para aquele mundo estranho e desconfortável dentro da mansão iluminada.

Em vez disso, mancou pelo caminho à direita, onde ficava a pérgola coberta de roseiras. Planejava esperar no jardim até Kyle sair, quando então voltaria em direção à mansão.

Mas será que posso me sentar?, perguntou-se, olhando para o banco.

A pérgola estava coberta de rosas cultivadas com mestria pelo tio Bill, e ainda assim ela nunca havia sentado ali. O lugar era reservado — proibido para os criados.

Mas esta noite sou convidada, então deve estar bem, não é?

Depois de ponderar por um longo tempo, sentou-se com cuidado na borda do banco. Depois de alguns minutos, reuniu coragem para tirar os sapatos.

Recostando-se no apoio de braço do banco, puxou as pernas para junto do corpo e abraçou os joelhos. Quando os pés tocaram o mármore frio do banco, a dor diminuiu um pouco. Os sapatos eram belos à vista, mas martirizavam os pés de tal forma que ela estremeceu só de pensar em calçá-los de novo.

Se não tivesse corrido com eles, o calcanhar estaria inteiro.

Enquanto tocava com delicadeza os pontos que mais doíam, uma memória veio à mente.

Fez uma careta ao se lembrar do Duque Herhardt a fitando enquanto beijava a noiva. Ficou igualmente desconcertada com o fato de Claudine ter pedido o beijo em primeiro lugar, quando claramente sabia que havia uma terceira pessoa na varanda.

— Por que fizeram isso? — murmurou, e sem perceber começou a esfregar os próprios lábios. — Que nojo... — Esfregou a parte interna dos lábios com o dorso da mão. Ver o duque na varanda havia trazido de volta as memórias do encontro perturbador que tivera com ele naquela noite de luar na cabana. Continuou esfregando e esfregando os lábios, tentando se livrar daquelas lembranças.