Chore, Melhor Ainda se Implorar [Novel]

Após perder os pais aos 12 anos, Layla Llewellyn é passada de um parente indiferente para outro, até ser enviada para outro país. Ao chegar ao Império de Berg, ela fica sob os cuidados de Bill Remmer, um parente distante e ranzinza que parece não se importar com nada além do seu trabalho como jardineiro da renomada família Herhardt. Depois de anos de negligência, tudo o que Layla deseja é um lugar para chamar de lar, mas seus encontros com o charmoso Duque Matthias von Herhardt e o restante da alta sociedade trazem provações e tribulações para a jovem de coração terno.

Capítulo 11 - Águas Profundas

Capítulo 11 - Águas Profundas

Tradução: Amme

Capítulo 11

Águas Profundas


A cabana tinha janelas grandes em todas as paredes, oferecendo uma vista magnífica do rio e da floresta. Com elas abertas, a ventilação cruzada normalmente mantinha o interior fresco mesmo no verão.

Aquele dia, porém, era de calor excepcional. Não era dia em que se esperasse sentir arrepios, e mesmo assim Layla sentiu um frio percorrer a espinha, fazendo seus ombros se contraírem. Estava determinada a comer o que tinha à frente o mais depressa possível para poder ir embora, mas ainda não havia dado uma única mordida.

Não sentia vontade de comer nada. Já havia almoçado bem e lanchado depois. Além disso, o trabalho sob o sol forte havia eliminado qualquer vestígio de apetite que pudesse restar. Matthias havia voltado a atenção ao trabalho e a havia deixado de lado, mas ela ainda tinha dificuldade de respirar direito.

Será que ele está me punindo pelo trabalho mal-feito e pelo arranjo de flores?, pensou Layla ao arrancar um pequeno pedaço do sanduíche. Se era esse o objetivo, conseguiu. Definitivamente me sinto punida.

Enquanto mastigava devagar aquele pedaço, sentiu vontade de cuspir. Para combater o impulso, tomou um gole de limonada. Depois enxugou a umidade das mãos no avental e pegou o sanduíche novamente. Abaixou a aba do chapéu para esconder o que tinha certeza ser uma expressão de agonia estampada no rosto.

Foi então que um dedo longo roçou seu queixo.

— Layla, se você é uma dama — disse Matthias, desatando a fita sob o queixo dela enquanto falava —, deve tirar o chapéu quando está em um ambiente fechado.

Antes que ela conseguisse responder, ele retirou o chapéu de palha de sua cabeça.

Layla se ergueu reflexivamente da cadeira, derrubando um pedaço do sanduíche no chão. Matthias estreitou os olhos, mas ela não percebeu. Toda a atenção estava voltada ao chapéu.

— P-por favor, me devolva. — A voz tremia, não de medo, mas de raiva. — Por favor, Vossa Graça? Vou embora agora. Quero ir para casa. Me devolva meu chapéu, por favor.

Matthias apertou o chapéu com mais firmeza, indicando que não pretendia devolvê-lo. Só tirei o chapéu dela, pensou. Por que ela reage como se tivesse sido despida? Notou com diversão que ela estava corada. Parecia que a pele dela reagia com facilidade a coisas pequenas.

— Coma — disse, apontando para os dois pedaços restantes do sanduíche no prato. — Coma, e você terá o chapéu de volta e poderá ir para casa. É simples.

— Não, não quero — respondeu ela, sacudindo a cabeça enquanto se aproximava. — Não estou com fome. Não consigo engolir nada agora. Não aguento.

Os olhos assustados tremiam. Ela mesma ficou surpresa com as palavras ousadas que saíam de sua boca.

Matthias apertou ainda mais o chapéu e se levantou da cadeira. Imponente acima dela, perguntou:

— Não aguenta?

— Me desculpe por tudo. Por favor, me devolva o chapéu. Por favor? — Em bicos de pés, ela tentou alcançar o chapéu. Estava à beira das lágrimas.

Com os olhos fixos no rosto dela, Matthias estendeu os braços lentamente e segurou o chapéu sobre a cabeça dela, tentadoramente. Layla acompanhou cada movimento com atenção, depois ergueu os olhos para encará-lo.

Depois de um instante tenso e breve, Matthias atirou o chapéu pela janela. Ele foi apanhado pela brisa e pousou na superfície do rio. Layla o fulmiou com um olhar glacial e saiu correndo do cômodo.

Matthias foi até a janela com vista para o cais e o rio. Layla logo apareceu no cais. Primeiro tentou alcançar o chapéu flutuante com o pé; em seguida, tirou o avental e os óculos e os pousou no cais.

Será que ela vai se jogar no rio por causa de um chapéu?, perguntou-se Matthias, olhando para ela com divertimento.

Apesar dos gestos resolutos, Layla visivelmente tremia, como se tivesse medo da água.

Ela não seria capaz..., pensou ele, cético.

Nesse instante, Layla pulou no rio. Depois de um breve momento de hesitação, começou a avançar em direção ao chapéu flutuante. Conforme se aproximava, a água chegou aos joelhos, depois à cintura, depois ao peito, mas ela não parou. Matthias continuou observando aquela cena absurda com os braços levemente cruzados.

Ao estender o braço para alcançar o chapéu, este escorregou para além do seu alcance. Em vez de desistir, ela deu com confiança mais um passo em direção ao chapéu, depois mais outro.

Logo a água vai estar acima da sua cabeça, pensou Matthias.

Com o braço totalmente estendido, Layla continuou a alcançar em vão o chapéu, até que finalmente agarrou a ponta da fita. Naquele exato instante, desapareceu sob a superfície da água.

— Era de se esperar — murmurou Matthias, franzindo a testa.

Layla havia se submergido exatamente no ponto que ele havia previsto. Chocada com o aumento repentino da profundidade, debateu-se desesperadamente, mas isso só a levou para águas ainda mais fundas. Durante tudo isso, continuou segurando a fita do chapéu como se fosse uma tábua de salvação.

Matthias desceu ao cais a passos largos. Mais uma previsão se confirmara: Layla havia pulado no rio sem hesitar, sem saber nadar. Parou na ponta do cais e olhou para ela se debater. Os gritos iam se tornando mais fracos conforme a cabeça dela subia e descia na superfície da água.

Tudo o que precisava fazer era comer, pegar o chapéu e ir para casa. Em vez de fazer algo tão simples, escolheu causar toda essa confusão. Matthias soltou um suspiro e mergulhou no rio.



As tábuas de madeira do cais, aquecidas pelo sol, ardiam contra a bochecha de Layla. Essa foi a primeira sensação que percebeu antes de compreender que havia saído da água em segurança. O alívio logo foi sucedido por uma onda de dor e medo.

O corpo se contraiu em acessos incontroláveis de tosse. Mesmo assim, manteve firme o aperto no chapéu que havia resgatado do rio. Matthias deu uma risada ao ver aquilo, ainda recuperando o fôlego.

O corpo encharcado de Layla havia deixado uma mancha escura no cais.

— O que foi... o que aconteceu...? — balbuciou ela, ofegante, encarando-o com um olhar penetrante que as lágrimas nos olhos tornavam ainda mais expressivo.

Matthias afastou o cabelo molhado da testa e a olhou de cima com diversão. Recuperado o fôlego, a risada cresceu.

Layla usou as mãos trêmulas para se levantar da superfície quente do cais. Água escorria dos cabelos longos e molhados como chuva. Os olhos estavam vermelhos, mas ela não chorou. Em vez disso, apenas fitou com raiva Matthias, aquele homem perverso que ria alegremente. Pensou em dizer algo, desistiu e se levantou de forma descoordenada.

Matthias se sentou preguiçosamente nas tábuas do cais, como se estivesse tomando sol. As roupas finas e molhadas colavam ao corpo, revelando as formas por baixo.

Quando o olhar dele se deslocou para os ombros dela, que ainda tremiam, ela começou a sacudir o chapéu com vigor para secá-lo.

Sem pestanejar, Matthias deixou a água fria do chapéu respingá-lo no rosto. Layla encarou aquilo como uma vingança, embora ele não parecesse se importar muito. Colocou o chapéu ainda escorrendo na cabeça e começou a torcer a saia. Os olhos o encaravam com desafio.

— Está gostando? — perguntou Matthias, enxugando o rosto como se estivesse se lavando. — Pessoalmente, já estou cansando disso. — Em um instante, o sorriso sumiu e foi substituído por um olhar tão frio quanto as águas do rio.

Layla se encolheu, mas não desviou os olhos.

— Como... o quê... por que está fazendo isso?

— Layla, não deveria dizer obrigada primeiro? — Ele enrolou devagar as mangas da camisa molhada. — Deveria agradecer a pessoa que acabou de salvar você de se afogar. — O tom era de uma calma propositalmente provocadora.

— Se não tivesse atirado meu chapéu no rio, nada disso teria acontecido.

— Não — disse ele, franzindo o cenho lentamente —, nada disso teria acontecido se você simplesmente tivesse comido o sanduíche e ido embora como devia.

Layla piscou em silêncio, perturbada demais para falar. O duque falava com calma demais para estar brincando.

— Ou se não tivesse tomado a decisão imprudente de pular na água sem saber nadar — acrescentou ele, sacudindo a água dos dedos.

Por fim, Layla sufocou a raiva e disse, a contragosto:

— Obrigada por me salvar, Vossa Graça.

Enquanto isso, repetia mentalmente o mantra: Pelo tio Bill... Pelo tio Bill... Pelo tio Bill...

— Repita — disse ele baixinho, ainda sem sorrir. — Como uma dama.

Desta vez, nem mesmo o amor que sentia por Bill conseguiu impedir que a raiva colorisse a resposta.

— Me desculpe, Vossa Graça, mas não sou uma dama como as nobres às quais está acostumado.

Matthias não se abalou.

— Isso não importa, Layla. Deve se comportar como uma dama na minha presença. — Algumas gotas escorreram dos dedos dele e caíram sobre o pé dela. — Porque, seja lá o que você for, eu sou um cavalheiro. — Os lábios esboçaram um leve sorriso, mas os olhos permaneceram sérios.

Layla apertou a saia molhada até os nós dos dedos ficarem brancos. Depois fez uma reverência graciosa, exatamente como ele queria.

Água pingou da aba do chapéu e salpicou o cais.

— Ofereço-lhe minha mais sincera gratidão por salvar minha preciosa vida, Vossa Graça — disse ela, articulando cada sílaba com perfeição apesar do corpo inteiro tremendo.

Matthias inclinou o queixo levemente para indicar que o gesto havia sido suficientemente digno de uma dama.

Cerrando os punhos, ela pensou: Não chore, Layla Llewellyn. Não chore por causa de um homem como esse. Depois de recuperar alguma compostura, endireitou a postura.

— Então vou indo. Até logo, Vossa Graça. — Sem esperar resposta, virou-se com confiança e deixou Matthias no cais. Enquanto andava, as gotas que escorriam da saia deixavam um rastro no chão. As pernas bambas a fizeram quase cair algumas vezes, mas com muito esforço conseguiu manter o equilíbrio.

Cerrando os dentes, fez uma resolução. Não vou cair hoje. E não vou deixar esse homem me tratar como brinquedo nunca mais. Não importa o que aconteça.

Ao sair do campo de visão dele, começou a correr. Os olhos estavam tão marejados que nem a sombra da aba do chapéu conseguia ocultar o vermelho. Aquilo a incomodava, então acelerou ainda mais o passo.

Certa vez, por acaso, o havia visto passeando com Claudine pela floresta. A visão daquele cavalheiro elegante acompanhando aquela bela dama parecia saída de um conto de fadas ou de uma história de amor cortês.

Quando chegaram à beira da floresta, uma rajada repentina de vento arrancou o chapéu de Claudine. Matthias foi até ele com passos tranquilos, recolheu-o e o devolveu a Claudine.

Os movimentos lentos e serenos haviam sido incrivelmente graciosos. Quando Layla percebeu que ele sempre se movia assim, os dois já haviam saído do seu campo de visão.

Mesmo quando a repreendeu e a humilhou naquele dia, havia feito tudo com a mesma graça impecável. Ao pensar nisso, sentiu o estômago revirar de repente. Parou de correr, cambaleou até um matagal e vomitou o que havia sido forçada a comer. Os olhos ardiam de lágrimas, mas ela não se permitiu chorar.

Depois que a náusea passou, foi até um riacho raso que corria pela floresta e enxaguou a boca. Sentou-se para descansar à sombra de uma árvore e logo se sentiu muito melhor.

Esfregou os lábios com o dorso da mão e voltou à trilha que levava à cabana. Sem energia para correr, caminhou arrastando os pés, levantando uma nuvem de poeira a cada passo. As meias e a saia molhadas logo ficaram cobertas de poeira, mas ela não ligou — já estava um desastre de qualquer forma.

Quando a cabana apareceu à vista, reuniu as últimas forças e chutou uma avelã que havia caído no caminho. Ao semicerrar os olhos para ver a noz inocente rolando pela trilha, percebeu subitamente o erro fatal que havia cometido.

— Meus óculos...

Levando as mãos frenéticas ao rosto, começou a soluçar. Ao olhar para trás, o caminho que acabara de percorrer parecia longo, escuro e ameaçador.