Tradução: Emma
Capítulo 53
Varkas, que estava entregando ao sacerdote um maço de pergaminhos contendo as identidades dos mortos, virou a cabeça e a olhou.
Thalia rapidamente abaixou o olhar.
Sob a luz do sol de verão, sua própria aparência, exposta em todos os detalhes, parecia ainda mais miserável, e ela não conseguia erguer a cabeça com orgulho.
— Parece que sua alteza, a segunda princesa, precisa receber tratamento urgentemente, então, por favor, dispensem o procedimento de entrada no palácio.
O mago da família Taren, que havia parado diante de Varkas, falou educadamente.
Quando nenhuma resposta veio imediatamente, Thalia ergueu os olhos novamente.
Varkas, com uma leve ruga entre as sobrancelhas, encarava atentamente o rosto dela.
Será que parecia estranho uma mulher que costumava fazer escândalo só de ser tocada por outra pessoa permanecer tão quieta?
Varkas, com os olhos estreitados, analisou seu rosto mortalmente pálido como se o estivesse dissecando, então lentamente baixou o olhar.
Seus olhos frios permaneceram por um instante sobre as mãos apoiadas sob suas costas e atrás de seus joelhos, então deslizaram até as panturrilhas que pendiam frouxamente sob a saia.
Como se tivesse notado a mancha vermelho-escura formada nas bandagens, a ruga entre suas sobrancelhas se aprofundou.
Imediatamente, um olhar questionador foi direcionado aos magos da família Taren.
Como se o ignorasse, o mago acrescentou gentilmente:
— Sua Majestade também compreenderá que Sua Alteza, a Segunda Princesa, irá diretamente para seus aposentos.
— Sim. Levem essa criança embora rapidamente.
No lugar dele, que permanecia em silêncio, uma voz clara respondeu abruptamente.
Virando os olhos na direção da voz, Thalia encontrou Ayla atravessando o terreno caótico enquanto conduzia um grupo de criadas, e seu rosto endureceu.
Ayla parou lado a lado com Varkas e a olhou como se tivesse pena.
— Ela acabou de suportar uma longa viagem estando debilitada, então seria melhor que recebesse tratamento e descanso o quanto antes.
Thalia cerrou os dentes.
A humilhação a invadiu diante daquele olhar morno cheio de piedade.
Se não estivesse em um estado em que não conseguia mover sequer um dedo, teria arrancado aqueles olhos sem hesitação.
Sabendo ou não o que fervia dentro de Thalia, Ayla, usando um sorriso gentil, pousou a mão no antebraço de Varkas.
— Explicarei tudo adequadamente para sua majestade.
Então virou-se graciosamente e o incentivou.
— Venha, vamos entrar agora. sua majestade está esperando.
Só então o homem que permanecia imóvel finalmente moveu lentamente as pernas.
Thalia manteve o olhar estupidamente fixo em suas costas se afastando, então logo baixou as pálpebras.
Os magos atravessaram o palácio principal e entraram em um amplo jardim coberto de flores.
Pouco depois, um grandioso edifício magnificamente decorado a engoliu.
Thalia foi tomada pela sensação de estar sendo sugada pelas entranhas de um monstro gigantesco.
Os magos cruzaram o salão de mármore em um instante, subiram as escadas e entraram no escritório de Senevia.
Depois de passarem por três ou quatro enormes estantes exibindo centenas de livros, revelou-se uma passagem secreta escondida entre os pilares.
Os magos entraram nela como se já estivessem acostumados.
Não demorou até o laboratório de Senevia aparecer.
Thalia franziu a testa diante do forte cheiro de óleo aromático e diversas ervas medicinais que faziam sua cabeça girar.
— Deitem-na aqui.
O mago, que atravessou o laboratório em largas passadas, abriu bruscamente uma porta ao lado de uma vitrine.
Era um cômodo que havia visitado várias vezes, mas no qual jamais tinha entrado.
O homem que a carregava deitou-a na cama posicionada no centro do quarto.
Thalia olhou ao redor com olhos cheios de ansiedade.
O cômodo perfeitamente organizado estava repleto de ferramentas de formas estranhas que jamais havia visto em toda a vida.
Depois de observá-las, voltou os olhos para os dois magos.
Eles estavam organizando instrumentos sobre a mesa cuja finalidade ela não conseguia imaginar.
Será que era assim que um bezerro se sentia ao entrar em um matadouro? Suor frio molhou a sua nuca. Se não estivesse sob magia, teria gritado.
— Primeiro, irei examinar o ferimento.
Um dos magos disse enquanto tomava posição perto de suas pernas.
Thalia enrijeceu completamente ao sentir a barra de sua saia ser levantada.
O homem, que retirava as bandagens com um toque profissional, estalou a língua levemente.
— A condição está mais séria do que eu esperava.
Com mãos frias como gelo, ele apalpou cuidadosamente seus joelhos e acrescentou:
— O fato de os ossos terem sido ajustados de forma tão amadora pode acabar se tornando um problema. Se o ferimento cicatrizar assim, os nervos ficarão paralisados, e jamais conseguirá usar as pernas novamente.
— Honestamente, a habilidade medíocre dos magos humanos...
O mago, murmurando baixinho, pegou uma pequena faca sobre a mesa.
— Não há escolha. Teremos que ajustá-los novamente.
Naquele instante, um soluço áspero escapou de sua garganta apertada.
Só então o mago percebeu o rosto dela, azul de medo, e abaixou o pano de algodão cobrindo a parte inferior de seu rosto, erguendo os cantos da boca.
— Não há necessidade de se preocupar tanto.
Parecia uma tentativa de tranquilizá-la, mas Thalia sentiu o sangue gelar.
Aquilo parecia menos um sorriso humano e mais um peixe imitando uma expressão humana.
O homem continuou falando.
— Será difícil devolvê-las exatamente ao estado anterior, mas ao menos garantirei que não haja problemas para caminhar.
Ela mal conseguiu mover os lábios.
Pare.
Se não pudesse voltar a ser como antes, não havia motivos para suportar esse processo.
Queria gritar isso, mas apenas soluços ásperos escapavam de sua boca.
O homem ergueu novamente o pano de algodão e deu uma instrução.
— Será melhor acender a erva do sono.
O mago que examinava os equipamentos sobre a mesa trouxe um pequeno braseiro para perto da cama e queimou um feixe de ervas medicinais completamente secas.
Thalia imediatamente prendeu a respiração.
Mas não conseguiu resistir por muito tempo.
Incapaz de suportar a sensação de sufocamento, inalou a fumaça, e sua visão instantaneamente começou a se afastar.
Thalia, que tentava manter os olhos abertos e afastar a cortina pálida diante de si, logo adormeceu como se tivesse desmaiado.
Gotas de chuva caíam sobre o lago.
Percebeu que estava sonhando.
A paisagem de uma antiga memória se desenrolava diante de seus olhos.
Thalia, de quatorze anos, estava agachada sob uma enorme e bela árvore, encarando a superfície cinzenta da água sobre a qual a chuva caía intensamente como se fosse sua inimiga mortal.
Ao lado dela, Varkas se aproximou, completamente encharcado pela chuva.
— O jogo de esconde-esconde acabou agora?
Ela lançou um olhar venenoso em sua direção.
Como se tivesse procurado por todos os cantos dos terrenos do palácio imperial, até mesmo suas roupas e penteado, que normalmente não apresentavam o menor desalinho, estavam completamente bagunçados.
Mas o humor de Thalia não melhorou nem um pouco.
Ela estendeu a mão, pegou um punhado de lama encharcada e atirou nele.
— Vá embora! Nem mesmo quero olhar para alguém como você!
Uma mancha horrível apareceu sobre o uniforme de veludo bordado com padrões esplêndidos, mas Varkas nem sequer piscou.
Sua reação calma apenas alimentou ainda mais a raiva dela.
Thalia continuou jogando torrões de lama.
— Suma daqui! Vá ficar com a Ayla!
— Eu gostaria muito disso.
Depois de soltar um breve suspiro, Varkas dobrou um dos joelhos ao lado dela e continuou:
— Mas, infelizmente, até sua alteza completar dezesseis anos, continuo preso a esse dever.
Thalia o encarou com uma expressão devastada.
Miseravelmente, sentia que estava prestes a chorar.
Para esconder isso, forçou os olhos e torceu deliberadamente os cantos da boca em um sorriso irritante.
— É horrível pensar que ainda vou ter que ver seu rosto por mais dois anos. Só de imaginar isso me dá vontade de vomitar.
— O odeio mais do que qualquer pessoa no mundo. Você me dá arrepios. Me enoja. Me causa náusea.
— Terminou?
— Ainda não terminei. Você cheira como um cavalo.
As sobrancelhas dele se ergueram levemente.
Thalia se assustou e abaixou os olhos.
Como Varkas havia passado a infância em um mosteiro, ele era obsessivo com limpeza.
Ele sempre cheirava a sabonete fresco.
Ele próprio devia saber disso muito bem, então certamente entendia que a crítica dela era praticamente uma reclamação sem fundamento.
Mas, em vez de apontar isso, Varkas colocou o casaco que segurava em uma das mãos sobre os ombros dela e se levantou.
— Escutarei o restante dos seus insultos no palácio anexo. Por favor, levante-se agora. Seus lábios ficaram roxos.
