O Campo Esquecido [Novel]

Todos os dias, eu rezo… para que este amor morra. Que eu te ame apenas até hoje, e que amanhã, este amor tenha desaparecido. Thalia Roem Ghirta é uma princesa imperial trágica, fruto de um caso extraconjugal e criada em um palácio que nunca a aceitou de verdade. Cercada por pais indiferentes, meio-irmãos hostis e servos que a desprezavam, Thalia cresceu marcada pela negligência. Para se proteger, aprendeu a mostrar seus espinhos a qualquer um que se aproximasse. E, no entanto, diante de uma pessoa, até mesmo ela se torna completamente indefesa. Varkas Raedgo Siarkan, um nobre senhor do Oriente, é vassalo da família imperial e herdeiro de uma casa grão-ducal. Criado sob a implacável pressão da perfeição, suas emoções foram embotadas por um treinamento que beirava o abuso. Ele vivia apenas para a honra e o dever de sua família. Para cumprir uma promessa feita à antiga imperatriz, Varkas fica noivo da meia-irmã de Thalia, Ayla. Consumida pelo desespero, Thalia começa a desmoronar lentamente. Mas o seu amor, outrora fadado apenas à morte, logo encontra uma reviravolta inesperada…

Capítulo 14

Capítulo 14

Tradução: Emma

Capítulo 14


— Não vai falar com ele?

Talvez achando frustrante que ela estivesse apenas observando de longe, as criadas ao lado de Ayla a incentivaram.

Todas pareciam desesperadas para ver Varkas de perto.

Entre elas, algumas o observavam com olhares que iam além da simples admiração e chegavam ao desejo.

Ayla fingiu não perceber aqueles sentimentos presunçosos e fez vista grossa.

Era a compostura que podia manter porque sabia que Varkas não lançaria sequer um olhar para outra mulher.

Claro, ele também nunca olhou para mim com desejo...

Ela soltou um sorriso amargo.

Para começo de conversa, Varkas parecia incapaz de sentir esse tipo de emoção.

Ele havia entrado no palácio imperial ainda muito jovem e recebido uma educação dos sacerdotes fundamentalistas fanáticos que beirava uma lavagem cerebral, tudo para transformá-lo em um súdito absolutamente leal ao império.

E, nesse processo, perdeu quase todas as suas emoções.

Quando sua mãe descobriu o quão severamente o filho do Grão-Duque Siarkan estava sendo disciplinado pelos sacerdotes, ela lutou desesperadamente para protegê-lo.

Mas o garoto já havia perdido não apenas alegria, raiva, tristeza e prazer, mas até mesmo a maior parte dos desejos básicos que um ser humano deveria possuir.

A expressão de Ayla se obscureceu ao se lembrar da primeira vez em que o encontrou.

Como aquele menino havia sido assustador no começo, com olhos tão vazios quanto a carapaça de um inseto.

Varkas parecia uma boneca feita de cera endurecida.

Era tão silencioso que era extremamente raro ouvi-lo dizer mais de duas palavras por dia e, a menos que alguém lhe desse ordens ao lado, não comia nem dormia.

Como todos os seus desejos haviam sido rigidamente controlados por tanto tempo, parecia ter se tornado incapaz de sentir não apenas fome, mas até mesmo vontade de dormir.

Comparado àquela época, o Varkas atual parecia muito mais humano.

Talvez ele melhore cada vez mais daqui para frente...

Ela lançou um olhar esperançoso para o noivo.

Já havia jurado inúmeras vezes não criar expectativas demais, mas sempre que o via, era impossível impedir que uma parte de seu coração se agitasse.

O belo garoto que permaneceu fielmente ao lado de sua pobre mãe...

Agora que ele havia crescido e se tornado o homem mais perfeito de todo o Império Roem, como poderia não desejá-lo?

Ela sabia que inúmeras mulheres que o guardaram em seus corações sofreram a amarga dor de um amor não correspondido, mas Ayla acreditava estar em uma posição muito mais vantajosa do que elas.

Embora fosse um casamento arranjado para fortalecer uma aliança política, em breve se tornaria sua esposa e, algum dia, daria à luz seu herdeiro.

Se ela derramasse afeto sobre ele pacientemente durante os longos anos que passariam juntos dali em diante, será que o coração congelado dele não derreteria algum dia?

Guardando esse desejo consigo, Ayla se aproximou cuidadosamente dele.

Talvez percebendo a presença de alguém, Varkas, que estava de costas para a luz, virou a cabeça em sua direção.

Por um instante, Ayla sentiu a espinha congelar.

Era um rosto frio que parecia zombar de todos os seus sonhos e esperanças.

O homem, que lhe lançou um olhar sem emoção, voltou a olhar para frente e perguntou em uma voz monótona:

— O que houve?

Ela estabilizou o coração abalado e forçou conscientemente um sorriso brilhante nos lábios.

— Saí porque fiquei curiosa para saber se os preparativos para a viagem estavam indo bem.

— Estão quase concluídos.

Ele acariciou levemente o pescoço robusto do cavalo e respondeu em um tom indiferente.

— Estou preocupado porque o período de preparação ficou mais longo do que o esperado. Como o clima ficou quente, será uma jornada difícil.

— Não há o que fazer. O cronograma foi interrompido porque Gareth insistiu em fazer tudo do jeito dele.

Ayla falou com cuidado enquanto observava a expressão do noivo.

Quando pensava no comportamento imaturo do irmão mais novo, seu rosto queimava tanto de vergonha que mal conseguia erguer a cabeça.

Como se juntar-se à viagem por puro capricho não fosse suficiente, Gareth agiu como se pretendesse empacotar todo o palácio do príncipe herdeiro e levá-lo consigo.

Ele insistiu em levar dezenas de servos para atendê-lo, além de palhaços para aliviar seu tédio durante a jornada, seu chef pessoal e até mesmo um alfaiate.

Ayla mais uma vez ficou impressionada com a paciência de Varkas, que aceitava silenciosamente todas aquelas exigências e reclamações absurdas sem sequer levantar a voz.

Ela tinha uma expressão de desculpas.

— Só lamento estar lhe causando tantos problemas.

— Não é algo pelo qual sua alteza deva se desculpar. Era algo que precisaria ser feito algum dia de qualquer forma.

Ele entregou as rédeas ao cavalariço e acrescentou indiferentemente:

— Comparado ao que havia me preparado para enfrentar, ele está se comportando de forma relativamente moderada. Já que está enviando embora sua preciosa irmã, esse nível de implicância é aceitável.

A expressão de Ayla se obscureceu.

As palavras dele fizeram com que as preocupações que ela tentava ignorar voltassem à tona.

Erguendo os olhos para o magnífico castelo branco reluzente, Ayla apertou com força a barra das próprias roupas.

Quando pensava em deixar o irmão sozinho naquele palácio imperial cheio de lembranças dolorosas, sentia o coração sendo despedaçado.

Além disso, não vivia ali um demônio maligno que cobiçava o lugar de Gareth?

Será que seu irmão impulsivo conseguiria enfrentar sozinho aquela mulher astuta?

— Se não for um incômodo para você, gostaria de visitar o palácio imperial regularmente mesmo depois de nos casarmos. Isso seria um problema?

Varkas, que examinava outro cavalo, voltou os olhos para ela.

Quando Ayla viu um leve vinco surgir entre as sobrancelhas retas dele, percebeu que havia feito um pedido infantil e corou.

Como Grã-Duquesa, administrar o vasto território do leste e comandar centenas de vassalos não seria uma tarefa fácil.

Depois de casada, teria que priorizar os assuntos da Casa Siarkan acima de tudo.

Mas Varkas, que a observava com olhos pensativos, assentiu como se aquilo não fosse algo importante.

— Desde que a longa viagem não desgaste demais sua alteza, pode ir e vir livremente sempre que desejar. Afinal, esse casamento não foi arranjado desde o princípio para fortalecer sua alteza imperial, o príncipe herdeiro?

A expressão de Ayla escureceu.

Para ele, talvez fosse um casamento puramente político, mas para ela não era.

Por um instante, sentiu-se decepcionada, mas Ayla se esforçou para parecer satisfeita.

— Obrigada por compreender.

Varkas apenas assentiu levemente e voltou a examinar os molares do cavalo.

Ayla engoliu um suspiro e colocou a mão sobre o antebraço do noivo, forçando-o a olhá-la.

— Eu sei que está ocupado, mas poderia me conceder um pouco do seu tempo? Há algo que quero lhe dar antes de partirmos para a viagem.

O homem, que a observava com um olhar intrigado, logo virou o corpo.

Então instruiu o escudeiro ao seu lado a levar todos os cavalos que já haviam sido inspecionados de volta ao estábulo e a acompanhou até um lugar relativamente silencioso.

Graças às criadas, que recuaram discretamente, Ayla pôde desfrutar de um passeio a sós com ele.

Segurou de forma firme o antebraço dele enquanto caminhavam pela trilha bem cuidada.

Quando entraram no amplo jardim de flores, uma brisa suave acariciou delicadamente os seus rostos.

O jardim do palácio principal florescia lindamente.

Nos canteiros cuidadosamente cuidados pelos servos, flores brilhantes de verão desabrochavam, e folhas verde-esmeralda cresciam densamente sobre os arbustos perfeitamente podados.

Ayla observou tudo aquilo com uma expressão melancólica.

Aquela paisagem sempre deixava arranhões em seu coração.

Mas, conforme o tempo passava, o palácio imperial, agora preenchido pelos vestígios de Senevia, havia se tornado parte do cotidiano, e o jardim de sua mãe desaparecia gradualmente de sua memória.

Esse fato era o mais difícil de suportar.

— O que era que queria me dar?

Ayla, que estava imersa em arrependimento, virou-se e ergueu os olhos para Varkas.

Quando era jovem, ele havia passado bastante tempo no jardim cultivado por Bernadette.

Ayla sabia que o coração devastado dele havia encontrado algum conforto ali, mesmo que apenas um pouco.

De repente, ela ficou curiosa.

Será que esse homem também sente falta do jardim de minha mãe?

Ayla observou atentamente o rosto inexpressivo dele, onde não havia o menor vestígio de emoção, e logo soltou um suspiro resignado antes de tirar um lenço de dentro do casaco.

— Eu bordei o brasão da Casa Siarkan.

O olhar do homem pousou sobre o tecido cuidadosamente dobrado.

A boca dela secou de repente.

Como se tentasse afastar o nervosismo, Ayla começou a falar em um tom exageradamente animado.

— É tradição dar ao noivo um lenço feito à mão antes de partir para uma viagem, não é? Claro, essa é uma viagem que faremos juntos, mas...

— É um presente imerecido.

O homem interrompeu suas palavras prolixas e aceitou o lenço.

Um leve sorriso pairou sobre seus lábios secos.

O coração de Ayla se encheu.

Feriu um pouco seu orgulho perceber que estava em uma posição onde cada pequeno gesto dele a deixava tão ansiosa, mas, mais do que isso, ela ficou feliz porque Varkas, que era tão econômico em demonstrar emoções, havia lhe dado um sorriso.

— Vou guardá-lo com carinho.

Ele disse isso enquanto amarrava o lenço ao punho de sua espada.

Ela sorriu timidamente.

Naquele momento, passos apressados ecoaram não muito longe dali.