Tradução: Amme
Ato 1: Este Amor é Como Uma Maldição
Capítulo 01
O som de passos ecoou de forma cadenciada pela escuridão. Gareth, que estava sentado em um banco do jardim contemplando o lago, virou a cabeça em direção ao corredor.
Varkas, impecavelmente vestido no uniforme formal da Guarda Imperial, caminhava pelo longo arco que ligava o corredor ao jardim. A visão dele evocava a imagem de uma serpente deslizando pelas profundezas de águas escuras.
Às vezes, Gareth se perguntava o porquê disso.
O cabelo loiro-pálido, da cor de linho desbotado. Os olhos azuis com um brilho prateado. A pele branca como gesso... Um homem composto apenas de cores apagadas, como um pergaminho antigo. Por que alguém assim era capaz de exalar um ar sinistro de tamanho grau?
Sempre que Gareth o encarava, um arrepio percorria sua espinha, sem motivo evidente.
— Vossa Alteza Imperial.
O homem colocou a mão sobre o peito e se curvou. Gareth acenou com a mão de forma brusca, o rosto contraído de irritação.
— Dispense as formalidades inúteis.
Ainda que pertencesse à Guarda Imperial, aquele homem era alguém que em breve sucederia o Grão-Duque Siarkan e governaria a região leste. Não era de forma alguma alguém que Gareth pudesse tratar com descuido. Ainda assim, ele apontou o queixo na sua direção como se lidasse com um subordinado qualquer.
— Quanto tempo vai me fazer ficar olhando para cima? Sente-se.
Mesmo diante de sua atitude grosseira, o rosto do homem não demonstrou qualquer alteração. Ele não parecia descontente, tampouco servilmente obediente; apenas indiferente. O homem se sentou no banco de mármore.
O Príncipe Herdeiro estudou suas feições finamente esculpidas, desprovidas de humanidade. À primeira vista, ele parecia igual a sempre, mas não era difícil perceber que não estava com um humor particularmente bom.
As coisas talvez não tivessem corrido bem? Gareth estreitou os olhos e perguntou em tom inquisidor.
— O que aconteceu no interrogatório? Não me diga que você não conseguiu descobrir quem estava por trás disso.
— Soube tudo o que havia para saber.
O homem puxou levemente a parte mais alta de seu casaco bem abotoado com uma das mãos e respondeu com voz monótona.
— Mas não será a resposta que Vossa Alteza deseja.
Gareth ergueu uma sobrancelha.
— Explique.
— A droga colocada no vinho de Sua Alteza, a Princesa, não veio do Palácio da Imperatriz.
— Então…?
— Foi receitada por um boticário imperial a uma criada que trabalhava no palácio principal. Disseram que sequer era tratada como veneno. Ela apenas provoca vômitos e dores abdominais como efeitos colaterais quando ingerida em grande quantidade de uma só vez, por isso não é controlada com nenhum rigor especial.
— Então está dizendo que uma criada do palácio principal de repente perdeu o juízo e colocou a droga na taça da minha irmã?
O Príncipe Herdeiro soltou uma risada incrédula. Mas os tendões do seu pescoço grosso estavam rígidos. Era um sinal de que o Príncipe Herdeiro estava furioso até a raiz dos cabelos.
Porém, o olhar de Varkas ao encarar Gareth, cujo rosto estava contorcido de raiva, era infinitamente seco.
— A criada não colocou a droga na taça por iniciativa própria.
— Então quem é o culpado por trás disso? — Ele perdeu a paciência e ergueu a voz. — Pare de enrolar e me diga logo a conclusão! Se a Imperatriz não pregou nenhuma peça e a criada não causou nenhum acidente, então quem ousou macular o vinho da minha irmã?
— A Segunda Princesa.
Com a resposta calma, Gareth, que estava respirando pesado, estremeceu.
— Aquela vadia?
O rosto do Príncipe Herdeiro se contorceu de forma hedionda. Quando falava da Imperatriz, era como lava em ebulição. Mas ao mencionar a filha bastarda que aquela mulher trouxera consigo, o Príncipe Herdeiro parecia alguém segurando a coisa mais imunda do mundo na boca. Do maxilar fortemente cerrado vinha o som de dentes rangendo.
— Aquela louca é mais do que capaz disso. Quando se trata da minha irmã, não passa de uma cadela cujos olhos reviram de ciúme até não conseguir distinguir o certo do errado...
Mesmo diante da xingaria vulgar que mais tinha lugar na boca de um bandido comum, Varkas não esboçou nenhuma reação. Gareth o encarou fixamente e, incapaz de soltar sua desconfiança persistente, voltou a se agarrar à Imperatriz.
— Mesmo assim, não é muito cedo para ter certeza de que Senevia... que aquela não teve nenhuma influência nessa história? Há toda a possibilidade de que aquela mulher tenha instigado sua filha...
— Se tivesse, teria usado um veneno de verdade, não uma droga fraca como essa.
Varkas falou friamente. Seus olhos pálidos brilharam levemente na escuridão.
— Se fosse a Imperatriz, ela não teria tratado o caso de forma tão atabalhoada a ponto de se deixar pegar.
Gareth não encontrou palavras para rebater e fechou a boca. Ficou ofendido com a interrupção, mas o desprezo na voz de Varkas lhe agradou.
O fato de que aquele jovem, completamente indiferente a tudo, mostrava suas garras quando se tratava da mácula da família imperial — Thalia Roem Gurta — era profundamente satisfatório para Gareth. Como se ele tivesse confirmado mais uma vez que aquele homem estava do seu lado... do lado deles.
— De fato... Se fosse a Senevia, ela jamais colocaria sua própria posição em risco com tamanha idiotice.
Gareth, com o humor um pouco melhorado, falou em voz animada.
— A Thalia, aquela desgraçada, atirou pedra no próprio telhado de vidro. Eu sabia que ela causaria confusão um dia. — Ele sorriu como o encrenqueiro travesso que fora na Academia. — Ela deve ter perdido a razão porque minha irmã te tirou dela. Como aquela bastarda foi arrogante esse tempo todo, mandando no herdeiro de uma casa grão-ducal com a cabeça erguida. Já que o cavaleiro que ela tratava como seu brinquedo está prestes a se tornar o consorte da "verdadeira princesa," ela deve ter enlouquecido de vez com aquele gênio dela.
O homem não deu resposta. Varkas Laedgo Siarkan era alguém que não falava mais do que o necessário. Portanto, seu silêncio não era nada de especial.
Mas Gareth às vezes achava o mutismo daquele homem insuportavelmente irritante. Esta era uma dessas vezes. Ele encarou Varkas fixamente, como se exigisse uma resposta, e disse:
— De qualquer forma, desta vez até aquela desgraçada não vai escapar da punição. Se as coisas derem certo, podemos até enquadrar como tentativa de envenenamento...
— O que Vossa Alteza deseja não será possível.
Pela segunda vez, ele interrompeu o Príncipe Herdeiro. Os olhos de Gareth ficaram ferozes imediatamente. Mas os olhos do homem ao encarar o futuro imperador do Império permaneceram impassíveis.
— Primeiro, há apenas evidências circunstanciais e nenhuma prova conclusiva. Se aquela mulher decidir negar tudo, provar sua culpa por esse caso não será fácil.
— Então podemos simplesmente colocar a criada que forneceu a droga no banco das testemunhas...!
— Vossa Alteza realmente acredita que, apenas com o testemunho de uma única criada, conseguirá colocar a filha mais velha da Senevia no banco dos réus?
Enquanto Gareth lutava para encontrar uma réplica, ele continuou calmamente.
— Segundo, mesmo que fique claramente provado que isso foi obra da Segunda Princesa, será difícil impor uma punição severa por meramente adicionar uma droga que causa dores abdominais. Se aquela mulher insistir que tudo não passou de uma travessura leve, provavelmente não passará de confinamento, no pior dos casos.
— Uma travessura leve?
Gareth, que estava ouvindo em silêncio, finalmente explodiu. Ele se levantou com um salto e agarrou o futuro grão-duque pela gola.
— Você sabe que tipo de humilhação a mulher que vai se tornar sua esposa sofreu diante de todo mundo? Uma moça que jamais perdeu a compostura em frente aos outros desmaiou no salão de banquetes enquanto vomitava! A Ayla estava com tanta dor! Como você pode chamar isso de uma mera travessura...!?
Como se mastigando a memória daquele dia, o rosto do Príncipe Herdeiro ficou vermelho o suficiente para ser visível mesmo na escuridão. Ele cerrou os dentes, esbaforido.
— Sim, eu estava louco demais naquele momento e deixei passar, mas quando a Ayla desmaiou, eu claramente vi a Thalia, aquela desgraçada, rindo à distância! Aquela bastarda miserável, cujos membros eu poderia arrancar um por um e ainda assim não me sentir satisfeito, ousou fazer isso com a minha irmã...!
— Vossa Alteza.
Gareth estremeceu e soltou o aperto. Varkas nem sequer erguera a voz, mas um suor frio se formou instantaneamente ao longo da espinha de Gareth.
Ele recuou e observou a expressão de Varkas.
O homem calmamente ajeitou as roupas desalinhadas.
— Aquela mulher não é alguém digna de tamanha atenção por parte de Vossa Alteza Imperial.
Sua voz era monótona, como se estivesse declarando o fato óbvio de que a noite vem quando o sol se põe.
— Tudo o que ela consegue fazer é atormentar os outros com travessuras mesquinhas como essa. É certo que alguém que vai se tornar o governante do Império perca a cabeça por algo de baixa significância?
Ele falou como se estivesse acalmando uma criança.
Normalmente, Gareth teria explodido de raiva, perguntando como ele ousava lhe dar uma lição, mas sabendo muito bem que havia cruzado a linha primeiro, ficou em silêncio.
O homem se levantou lentamente do assento. Embora estivesse cometendo a descortesia de sair sem pedir licença ao Príncipe Herdeiro, seus movimentos eram tão naturais quanto água corrente.
— Enviei medicamentos para Sua Alteza, a Princesa, para acalmar seu estômago. Além disso, de agora em diante pretendo supervisionar rigorosamente todo o vinho e alimento colocado à mesa dela.
— Então está me dizendo para encobrir e seguir em frente?
— Se Vossa Alteza insistir em revelar a verdade desse caso e punir a Segunda Princesa, não o impedirei. Mas gostaria de não mais me envolver neste assunto.
Com a resposta apática, o rosto de Gareth ficou vermelho. Varkas parecia estar tentando descartar a situação como nada mais do que uma brincadeira travessa de uma garota imatura tomada por ciúmes.
Como ele dissera, se o Príncipe Herdeiro e o herdeiro do grão-ducado leste se exaltassem por um incidente tão trivial, apenas a própria dignidade deles sairia prejudicada.
Mas Gareth sentiu uma forte resistência à sua frieza. Não era simplesmente por causa de sua atitude indiferente em relação à irmã de Gareth. O príncipe lançou-lhe um olhar desconfiado.
— Não me diga que está protegendo aquela desgraçada.
O homem, que estava se virando para o caminho por onde viera, parou e lançou um olhar gelado por cima do ombro.
Naquele momento, o vento que soprava da margem do lago agitou suavemente seu cabelo loiro-cinza. Mas a impressão do homem não mudou, sequer levemente. Um sorriso afiado como uma lâmina bem amolada tomou conta de seus lábios.
Era a primeira expressão que jamais havia aparecido em seu rosto, que sempre estivera tão imóvel quanto o de alguém usando uma máscara.
— Eu? Proteger aquela mulher?
Varkas soltou uma risada baixa, como se tivesse ouvido algo divertido. Mas nos olhos azuis do homem, uma raiva afiada relampejou.
Por um momento, Gareth ficou sem palavras. Ele sabia que aquele homem desprezava a Thalia. Mas não sabia que ele nutria uma hostilidade tão intensa em relação a ela.
Não era este um homem a quem a alegria, a raiva, a tristeza e o prazer haviam sido completamente extirpados pelos sacerdotes? Na verdade, há mais de dez anos, Gareth jamais o vira revelar emoção alguma.
O que ela havia feito para que esse homem de madeira oca mostrasse os dentes assim?
Gareth o estudou com atenção, curiosidade nos olhos.
Ele havia ouvido que, durante o tempo em que Varkas serviu como cavaleiro pessoal de Thalia Roem Gurta, o homem sofrera todo tipo de insulto daquela mulher, mas jamais imaginara que Varkas pudesse ser afetado por isso.
Ele não era nobre demais para ser abalado pela histeria de uma garota imatura? Gareth pensara que Thalia Roem Gurta era meramente uma existência irritante e chata para ele, nada mais. Mas aparentemente não era esse o caso.
Os olhos azuis de Varkas, desprovidos de qualquer traço de calor, brilharam de forma sombria enquanto ele cuspiu as palavras.
— Simplesmente não desejo me envolver com aquela mulher nunca mais.
Então, como se não houvesse mais nada a dizer, ele se virou e voltou pelo caminho por onde viera.
Gareth o observou se afastar em silêncio, sem fazer nenhum som, como uma cobra d'água cruzando a superfície de um lago. Um sorriso amargo se formou nos cantos de sua boca.
"Não sei o que a Thalia fez, mas isso funciona bem para mim."
O homem que deveria se tornar um de seus poderosos apoiadores odiava seu inimigo. Isso não tornaria a aliança deles ainda mais sólida?
Com uma expressão satisfeita, Gareth se levantou do assento.
